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Muito atento aos sinais
Luiz Trevisan

Muito atento aos sinais

Chama a atenção o letreiro no pára-brisa traseiro onde a motorista botou na rua seu bloco de sentimentos extremos: “Presente de Deus é a família, três filhas e três netos. Marido: mais nunca, nem pensar. Deus me livre!”, assim com exclamação e tudo”

A trilha sonora adequada para enfrentar o trânsito intenso de cada dia está no disco “Atento aos sinais”, do Ney Matogrosso. Começa pelo título, pois qualquer descuido pode ser um nó, uma batida, uma temporada ambulatorial, um processo, prejuízo, quando não acontece o pior. Como o casal de moto na Terceira Ponte que acabou vitima de um racha feito por dois motoristas de instintos assassinos. Pensou que “Velozes e furiosos” era só fita de cinema? Moradores da Reta da Penha, por exemplo, costumam ser despertados altas horas pelo ronco de carros batendo racha por ali.

Indo adiante, e como se já não bastassem carretas com motoristas babando na traseira – lembra o “Encurralado”, primeiro filme do Spielberg? –, o sem noção da frente que desconhece a existência da seta, os motociclistas em zig-zag e a bike do abusado na contramão, diariamente testemunhamos a multiplicação de malabaristas e vendedores nos semáforos, e a invasão dos patinetes elétricos por todos os lados.

Inclui aí o pedestre desligado que fala ou manuseia o celular enquanto atravessa – e nem sempre na faixa – como se andasse na sala de casa. Esse desligado sem causa agora corre risco de pegar uma multa pesada, isso em Nova Iorque, onde o Senado pode aprovar uma lei com punições para quem cruzar as vias utilizando qualquer dispositivo eletrônico. Exceto em caso de comprovada emergência. Tenho um amigo que costuma apelidar esses sem noção no trânsito de “cestinha básica”, que é o que você terá de arcar por um tempo caso se envolva em algum acidente com eles.

Quanto aos patinetes, a Prefeitura do Rio de Janeiro pelo menos mandou recolher os da municipalidade até alguma regulamentação. De loucura e descaso, já bastam os túneis e ciclovias desmoronando, as balas perdidas e endereçadas, os alagamentos. Em Montevidéu e Paris também se discute a regulamentação e restrição do uso dos patinetes, com tendência de liberação apenas em ciclovias.

Em Vitória, esse debate começa a ganhar corpo, tipo assim antes tarde do que nunca. Em tese, Vitória é uma ilha fácil de ser cercada por ciclofaixas, onde poderia fluir toda essa gama em busca de mobilidade e vida mais saudável, em meio aos que caminham e correm: os patins, skates, monociclos, bikes etc. Porém, como ainda nem conseguimos dar jeito nas calçadas e emplacar aquaviário adequado, parece a história de Santo Agostinho olhando o menino que insiste esvaziar o mar com baldes.

E ando convencido de que, a exemplo do que ocorre na baía do Rio de Janeiro, onde operam balsas milicianas, em todo lugar que o Estado não se faz presente – assim como na terra – também em nossas águas a ilegalidade poderá nadar de braçada. Mais recentemente, o governo estadual sinalizou para 2020 a reativação do aquaviário. É bom não demorar mais, pois os milicianos estão por aí erguendo prédios sinistros, manobrando balsas, “vendendo” segurança, mandando bala.

Voltando às ruas de Vitória, sempre atento aos sinais, agora o rádio do carro enfim quebra a sequência de funks e sofrência, e surpreende tocando ele, Ney Matogrosso, dando voz ao cachoeirense Sérgio Sampaio no hit “Eu quero é botar meu bloco na rua”. O estímulo à catarse pregada na letra só aumenta quando à minha frente se encaixa um Corsa branco conduzido por uma mulher. Não, nada contra mulheres ao volante, que é clichê machista, pois conheço várias que dirigem muito bem.

O que chama a atenção é o letreiro estampado no pára-brisa traseiro onde a motorista botou na rua seu bloco de sentimentos extremos: “Presente de Deus é a família, três filhas e três netos. Marido: mais nunca, nem pensar. Deus me livre!”, assim com exclamação, estupefação e tudo. Impossível mais peremptório. Do afeto mais profundo à abominação absoluta. Sinal de que assim no trânsito como no lar, amor e ódio podem mesmo andar lado a lado.


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