Morar bem é luxo de poucos

Edifício onde mora o cantor, Roberto Carlos, na Urca (Foto: Divulgação/TripAdvisor)
Edifício onde mora o cantor, Roberto Carlos, na Urca (Foto: Divulgação/TripAdvisor)
Morar com qualidade de vida é um preço que se paga cada vez mais caro e se tornou inacessível à maioria. Nas estatísticas comuns dessa época do ano, uma do IBGE pontua isso com clareza. Dá conta de que 24% da população vivem em boas condições enquanto 76% habitam moradias carentes de infraestrutura, saneamento e segurança, sujeitas a alagamentos, mosquitos, barulho, calor e falta de privacidade. E aquela história de “os incomodados que se mudem” só funciona para poucos.

Recentemente, o edifício onde mora o cantor Roberto Carlos, na Urca, Rio de Janeiro, passou por uma reforma na fachada. E o que fez o “rei”, para se livrar do baticum das obras? Juntou suas tralhas da corte e se mandou para Miami, onde tem apartamento. Quando a obra acabou, voltou, cheio de toques e tais, mas isso já é outra história. E o que faz o morador de um prédio quando é feito qualquer tipo de reforma por ali: se não tem outro imóvel como escape, vai ser obrigado a conviver com aquele barulho todo ao lado.

Caso o “rei”, por algum súbito saudosismo não midiático resolvesse passar algum tempo na casa onde nasceu, em Cachoeiro de Itapemirim, iria ter saudades do barulho na Urca e da privacidade de Miami. Aquelas casas da vizinhança do então bucólico bairro Recanto, com seus quintais, árvores e varandas, transformaram-se em muquifos de alvenaria, cheias de puxadinhos e meia-água. Numa rua onde havia 15, 20 casas arejadas, hoje, no mesmo espaço, há umas 100 moradias empilhadas. E imagina tudo isso num calor de fritar os miolos, comum nesta época.

Durante certo tempo, os bairristas cachoeirenses se vangloriavam de ser “o subúrbio mais próximo do Rio de Janeiro”. Isso acabou sendo levando a extremos. Hoje, a gritante desigualdade social está explícita nas vielas da cidade. Não faz muito tempo, um site de Cachoeiro estampou a notícia “Morre o rei do Recanto”. Dava conta de um traficante do bairro, rei da boca, abatido a tiros por concorrentes. Já vai longe o tempo em que “Rei do Recanto” era o cantor-compositor. O tom agora é outro, metal pesado.

O “Meu Pequeno Cachoeiro” se adensou, o bucolismo existe apenas na imagem projetada pela canção composta por Raul Sampaio. Ele próprio, por sinal, quando retornou do Rio, há uns 15 anos, resolveu ir morar em Marataízes em busca de algum sossego. Mas também por lá, está ficando difícil.

E mesmo onde se deve aprender e difundir normas de civilidade, como nas escolas, a cidadania costuma passar ao largo. Nessas festas de final de ano, uma faculdade na Reta da Penha, em Vitória, promoveu uma festinha de encerramento do ano letivo. Tudo muito bem, não fosse pelo barulho que avançou madrugada adentro. E que foi coroado, lá pelas três da matina, com um karaokê berrado a plenos pulmões. Acionar o serviço Disk-Silêncio? Pode-se tentar, mas costuma ser apenas dar mais chance ao aborrecimento.

E para não desafinar mais o coro dos descontentes, já que o momento é de confraternização e de renovar esperanças, vale registrar uma fala do ministro do STF Luiz Roberto Barroso, o único que anda peitando Gilmar Mendes - o mais notório protetor da bandidagem de alta patente. Segundo Barroso, bem ou mal, tivemos nos últimos anos alguns avanços como a estabilidade institucional e monetária. Ele sugere que devemos fazer o melhor papel que puder, não importando o que aconteça no entorno. “Os bons não podem desistir”, conclama.

Já a melhor colocação dos últimos tempos da última semana, sob o efeito do clima natalino, veio do crítico de cinema Sérgio Augusto. Ao rebobinar o filme “A Felicidade Não Se Compra” (Frank Capra), ele argumenta que quem matou o verdadeiro espírito natalino não foram os filósofos - Sartre, Nietzsche, Schopenhaeur - mas a “sociedade de consumo, insana, perdulária, egoísta e profundamente anticristã que o pior do capitalismo estimulou”. De todo modo, é tempo de seguir adiante. Feliz Ano Novo!