Meu “bom” menino

 (Foto: Divulgação)
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“Era um bom menino, tímido, dedicado, obediente, estudou economia”. Depois... bem, anos depois ele comandou aquele ataque às Torres Gêmeas de Nova Iorque que deixou três mil mortos, e profunda cicatriz no coração da América. A descrição inicial é sobre Osama Bin Laden e foi feita recentemente por Alia Ghanem, mãe do outrora tímido Bin, que comandou a Al-Qaeda e botou terror no mundo. A mãe justificou que o filho teria passado por uma “lavagem cerebral” e deu no que deu. Até ser morto numa operação militar da inteligência americana no Afeganistão.

E olha que a família Bin Laden é uma das mais ricas do mundo, toca conglomerado de petróleo, empresas de construção, possui ações da Boeing, Microsoft etc. Bin, economista, poderia estar tranquilamente instalado no comando de uma delas, cuidando do patrimônio e aproveitando a vida adoidado: no bolso, cartões corporativos de saldo infinito, inverno na Suíça, verão em Ibisa, férias na Côte D`Azur, aquela vida que meio mundo inteiro pediu a Deus e poucos alcançam.

Coisa assim para potentado árabe, mafioso russo, parlamentar brasileiro ou herdeiro de empresário rico que vai morar em Miami e dá uma banana pra todo mundo. Nesse rol de privilegiados, vale incluir artista pop que quebra a internet. Madonna, por exemplo, atualmente em Lisboa, esbarra no Chiado com brasileiros refugiados da nossa crise. O mundo das celebridades, por vezes, é tangível, nem que por instantes fugazes.

A propósito, há uma observação oportuna da escritora Fernanda Young: “Artistas não precisam ter talento para arte, bastam ser famosos. Políticos não precisam ser honestos, bastam ser populares. Opiniões não precisam ser interessantes, bastam ser corretas”.

Outro exemplo clássico de “menino bom” que depois virou o diabo chupando manga foi Josef Stalin. Criado na Igreja Católica e habituado a frequentar missa ao lado da mãe, acabou atendendo incontido desejo materno e foi estudar num seminário para se tornar padre. Aplicadíssimo no início, lá dentro virou mesmo foi comunista, após travar amizades com marxistas que estavam por ali não se sabe exatamente fazendo o quê. Alguns, certamente, seguindo uma opinião avaliada inicialmente como correta.

Stalin achou mais interessante sair do seminário para ajudar a derrubar o império czarista e, mais tarde, erguer o bloco soviético a ferro e fogo. E põe ferro e fogo nisso, mais crimes de mando, complôs, traições, atentados – ninguém ergue impérios seguindo manual de boas maneiras–, coisa assim de deixar com inveja certo contemporâneo chamado Adolf Hitler, que também teve uma cândida adolescência. Há quem diga que toda a ira de Hitler começou vir à tona no dia em que ele foi reprovado na escola de Artes de Viena, em 1908, onde ele queria estudar pintura. Imagina, se aquele moço tivesses sido aprovado e passasse a freqüentar saraus, salões e galerias de arte em vez de iniciar a Segunda Guerra Mundial?

Então, é preciso sempre muita atenção quando se decide deixar o filho numa escola, num seminário, quando é encaminhado para alguma universidade. Posto de outra forma, também não se deve descuidar, jamais, se ele for reprovado num simples curso de Artes Plásticas. Nunca se sabe hoje como os bons meninos irão reagir amanhã. A rigor, duas das melhores sugestões de nome para banda de rock que conheço são “Traumas de Infância” e “Não, Freud”. Porém, seguem inéditas essas sugestões, posto que roqueiros não curtem psicanálise – preferem sexo e drogas –, e muitos ainda não cresceram o suficiente para descobrir o quarto acorde.

A Segunda Guerra Mundial, que eliminou milhões da face da terra, por vias tortas alterou toda a cultura e civilização ocidental e oriental das últimas décadas. O progresso científico e tecnológico impulsionado a partir do conflito trouxe um mundo novo de possibilidades. Pelo menos não se morria mais de tuberculose, difteria e sarampo, doenças que, por sinal, mataram, na infância, quatro irmãos de Hitler... Oooopppsss, o sarampo agora recrudesce e a malária avança em pleno século 21. Já os sanguinários, esses nunca saíram do mapa, só mudam de território, capa e disfarce. E olha que muitos tiveram mães dedicadas. E pais quase sempre ausentes.