Memória em chamas

“Agora começa a série de matérias e análises mostrando como sempre agimos depois da porta arrombada ou após as chamas lamberam tudo”

Um dos maiores temores que a idade traz às pessoas é quando o indesejável “alemão” bate à porta, adentra e a memória vai virando chamas e cinzas, assim como o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Tempo, descaso e desvios diversos são somados ao sentimento dominante de que museu é coisa de velho, e isso não interessa ao mundo dos negócios, que tenta o tempo todo seduzir jovens consumidores, seja lá como for. Menos velharia. Só se admite museu de grandes novidades e na moda retrô reciclada, de tempos em tempos, para as passarelas de grife.

Ou então é o “Museu do Amanhã”, que recebe apoio da Fundação Roberto Marinho (Globo), vendendo um futuro tecnológico esperançoso, e mercadológico. Museu de ontem, Diário da Princesa Isabel e fósseis interessam a quem? Num País descuidado com a própria memória histórica e arquitetônica, não se pensa duas vezes em derrubar o casario colonial e ali instalar um espigão espelhado e sem identidade. E vamos comprar um quarto e sala conjugada no futuro, prestações a perder de vista. O passado é a tal velha roupa colorida, do Belchior, que já não serve mais.

Há quem pense diferente. No Museu do Louvre, Paris, 67 bombeiros bem treinados mantêm-se de plantão lá dentro, 24 horas e com toda infraestrutura para agir. E olha a fonte de rendimento que é o museu. Pra você chegar na Monalisa é preciso se armar de paciência, encarar uma fila enorme e com uma boa câmera para não fazer feio diante daqueles insaciáveis japoneses, chineses, escandinavos etc. Em bandos high tech trazem as últimas novidades na palma da mão.

O problema é que museu, para jovens, costuma ser programa de velho feito só durante as férias, passeios turísticos. Aqui, a escassa memória leva muita gente a fechar os olhos para o “rouba, mas faz”. Quantos Malufs já foram eleitos? E o que dizer do atual risco de elegermos um defensor de torturadores para presidente? O Brasil levou uma eternidade até descobrir Cabral e sua pirataria ao erário, no Rio de Janeiro, que abriram o caminho para as chamas devastadoras.

Nossos curadores e gestores lamentam, apontam causas, mas como essa turma gosta de viajar, fazer intercâmbios, simpósios, não têm tempo para se ocupar com segurança patrimonial, prevenção, essas coisas. Nos últimos tempos, o Museu Nacional recebia pouco mais de R$ 50 mil por mês para manutenção. E quanto aos pequenos museus espalhados e esquecidos aqui e ali?

Num giro regional rápido, temos o Museu do Colono, em Santa Leopoldina, do Augusto Ruschi, em Santa Teresa... Excetuando um e outro, como o da Vale, em Vila Velha, são museus franciscanos. O do Roberto Carlos, em Cachoeiro, então, esse faz dó. Em seu acervo, há um velho piano desafinado, as teclas quebradas. Isso na sala da casa do “Rei” da canção soa constrangedor.

E agora começa a série de matérias e análises mostrando como sempre agimos depois da porta arrombada ou após as chamas lamberam tudo. Talvez seja este o momento de lançar um novo olhar para esses museus e incluir o Convento de Penha, principal patrimônio turístico e religioso do Estado. Além de carecer de intervenções de acessibilidade, sua estrutura é antiga e não se conhece um plano de prevenção a incêndio lá no alto. Não se pode deixar tudo na conta da padroeira.

Nesta fase de campanha eleitoral, faça um teste: veja se encontra algo sobre museus ou preservação da memória fazendo parte de alguma fala ou programa dos candidatos que estão no ar. Museu, memória, cultura, isso não dá voto, assim como meio ambiente, “ensinam nossos marqueteiros”. Talvez agora, com as chamas do Museu Nacional se alastrando na grande mídia, faça-se alguma luz. E que não seja chama.