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Ligados
Martha Medeiros
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Lembro como sofri quando, uns cinco anos atrás, as lâmpadas incandescentes começaram a ser retiradas do mercado a fim de dar lugar às fluorescentes, mais compatíveis com o projeto de eficiência elétrica nacional. Naquela época, eu ainda não sabia que existiam lâmpadas fluorescentes que reproduziam a calidez das incandescentes. Imaginava que eram todas brancas e frias, luz para pessoas jurídicas, luz de sala cirúrgica, de cartório, de salão paroquial.

Eu não conseguia aceitar. As pessoas à minha volta rendiam-se fáceis a elas, citavam benefícios como economia e durabilidade, argumentavam que a troca era um importante movimento rumo à melhor qualidade de vida, mas eu, desumana, só pensava no meu vício em abajures, na minha fixação por aconchego, por uma atmosfera romântica e poética da qual eu não admitia abrir mão.

Tinha noção, claro, de que o assunto era banal, nenhuma catástrofe, mas, sendo dependente de iluminação indireta, eu fazia estoque das incandescentes, buscando-as avidamente como se fosse uma consumidora de drogas.

Alguém me avisava que havia um restinho delas sendo vendidas num armazém onde Judas perdeu as botas e eu me tocava pra lá, emocionada por conseguir evitar a abstinência por mais um tempo, até que parei de encontrá-las e me rendi as fluorescentes, sem supor que viria a ter com elas uma relação estável e amorosa como com qualquer outra lâmpada. Quando vivemos a dor de uma separação, não conseguimos enxergar o futuro.

Resgatei essa história boba sobre lâmpadas ao pensar no tema sustentabilidade, uma palavra que tem variadas aplicações, mas que ainda deixa muita gente confusa, sem saber como aderir. Não tem mistério: em vez de jogar uma garrafa pet no mar (ou deixá-la jogada na areia, o que dá no mesmo), coloque a garrafa no lixo.

Pra ficar perfeito: separe o lixo seco do orgânico, para que a garrafa possa ser reciclada. Troque o carro pela bicicleta ou pelo transporte público (de vez em quando, ao menos).

Não jogue cigarro aceso na mata (se não fumar, melhor ainda). Feche a torneira enquanto escova os dentes. Use as mesmas toalhas do hotel por dois ou três dias seguidos.

Apague a luz (fluorescente) quando sair do quarto. Assim, de pequeno gesto em pequeno gesto, a gente colabora pra manter o meio ambiente a salvo por mais alguns milhões de anos, e não só por mais algumas décadas. Vem gente atrás, lembra?

Pois é, temos que lembrar. A lâmpada é o símbolo da reflexão, do despertar, do eureka! Do manter-se ligado. Deve ser por isso que comecei a coluna contando aquela história de fluorescentes e incandescentes. E deve ser por isso também que agora não sei como acabar o texto. Talvez porque a ideia central seja mesmo essa: não acabarmos.
 

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