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Leia trecho inédito de romance de Olga Tokarczuk, vencedora do Nobel

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Leia trecho inédito de romance de Olga Tokarczuk, vencedora do Nobel


 Olga Tokarczuk (Foto: Reprodução/Youtube)
Olga Tokarczuk (Foto: Reprodução/Youtube)
A vencedora do Nobel de Literatura Olga Tokarczuk terá um novo romance lançado no Brasil em novembro. "Sobre os Ossos dos Mortos" será publicado pela editora Todavia. A editora anunciou ainda que irá publicar a obra da escritora no país.

Antes, a polonesa tinha apenas um livro foi publicado no país: "Os Vagantes" (ed. Tinta Negra), mas está atualmente esgotado. A história, que ganhou a versão internacional do Man Booker Prize em 2018, vai ganhar uma nova tradução no Brasil e um novo título: "Viagens".

Para Leandro Sarmatz, que editou "Sobre os Ossos dos Mortos", a polonesa tem uma voz inquieta e crítica sobre a política e a cultura de seu país. "O hibridismo formal e a visão sobre temas de hoje –autoritarismo, especismo, envelhecimento–, aliados a uma escrita que sempre toma o partido do prazer do texto, fazem dela um nome incontornável", avalia o editor.

Leia abaixo o trecho do romance:

Pedaços de lenha de diversos tamanhos recobriam as paredes do vestíbulo. Era, de fato, um interior desagradável, sujo e descuidado. Sentia-se o cheiro de mofo, madeira e terra – molhada e voraz. O odor de fumaça, de longa data, envolveu as paredes com uma camada de gordura.

A porta da cozinha estava entreaberta. Assim, de imediato avistei o corpo de Pé Grande prostrado no chão. Meu olhar roçou nele fugazmente, para logo recuar. Demorou um bocado antes que eu conseguisse olhar para lá outra vez. Era uma cena horrível.

Estava deitado, retorcido numa posição estranha, com as mãos junto do pescoço como se quisesse afrouxar a gola apertada. Ia me aproximando aos poucos, como que hipnotizada. Vi os seus olhos abertos fixados em algum ponto debaixo da mesa. A camiseta suja estava rasgada na altura da garganta. Parecia que o seu corpo tinha travado uma luta consigo mesmo, foi derrotado e se entregou. Fiquei com frio de tanto horror, meu sangue gelou nas veias e senti como se tivesse cedido para o próprio fundo do meu corpo. Ainda ontem havia visto esse corpo vivo.

– Meu Deus – balbuciei. – O que aconteceu?

Esquisito deu de ombros.

– Não consigo ligar para a polícia, o sinal da operadora tcheca deu interferência outra vez.Tirei meu celular do bolso e digitei o número que conhecia da televisão – 997 – e, em seguida, uma voz tcheca automática ressoou no aparelho. Aqui é assim. O sinal vagueia, sem se importar com as fronteiras nacionais. Às vezes, a fronteira entre as operadoras ficava por um tempo na minha cozinha. Outras, se fixava durante alguns dias junto à casa de Esquisito ou no terraço. No entanto, era difícil prever o seu caráter quimérico.

– Você devia ter subido a colina – o aconselhei tardiamente.

– O corpo vai enrijecer por completo antes que eles cheguem – disse Esquisito num tom que eu não gostava, particularmente no seu caso: era um tom sabichão. Tirou a samarra e a pendurou no encosto da cadeira. – Não podemos permitir que fique assim. Está com um aspecto repugnante, mas, enfim, era nosso vizinho.

Olhava para o pobre e retorcido corpo de Pé Grande e me custava entender que ainda ontem tinha medo desse homem. Não gostava dele. Talvez não gostar fosse até um eufemismo.Deveria, aliás, dizer: ele me parecia repugnante, horrível. De fato, nem sequer o considerava um ser humano.

Agora estava prostrado no chão manchado usando uma cueca suja, pequeno e magro, impotente e inofensivo. Ora, um fragmento de matéria que, em consequência de transformações difíceis de ser imaginadas, virou um ser frágil, isolado de tudo. Fiquei triste, extremamente triste, pois mesmo uma pessoa tão desagradável não merecia morrer. Aliás, quem mesmo merece morrer? Eu também compartilharei o mesmo destino, assim como Esquisito e aquelas corças lá fora; todos nós seremos um dia nada mais que um corpo morto.

Olhei para Esquisito, na esperança de algum consolo, mas ele já tinha se entregado à tarefa de arrumar a cama revirada, improvisada sobre um sofá-cama em ruínas, então fiz o possível para me consolar sozinha. Passou, então, pela minha cabeça a ideia de que a morte de Pé Grande poderia ser considerada, de alguma forma, algo bom, pois o libertou da bagunça que era a sua vida. E libertou outros seres vivos dele. Eis que, repentinamente, me dei conta dos benefícios da morte e de como ela era justa, à semelhança de um desinfetante ou de um aspirador. Admito, foi o que pensei, e continuo com a mesma convicção.

Era meu vizinho, menos de um quilômetro de distância separava as nossas casas, mas, por sorte, o meu contato com Pé Grande era esporádico. Normalmente avistava-o de longe –sua figura franzina e rija, sempre um pouco instável, se deslocava com a paisagem ao fundo. Ao andar, balbuciava algo e, de vez em quando, a acústica ventosa do planalto propagava os farrapos desse monólogo, essencialmente simples e pouco diversificado, trazendo-os até mim. Seu vocabulário era composto principalmente de palavrões aos quais acrescentava apenas nomes próprios.


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