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Histórias do Futebol: Ídolo em Portugal, anônimo aqui


Pé-Canhão como é conhecido no Benfica, participou de um evento com ex-jogadores do clube, em 2016, e é sempre bem recebido em Portugal (Foto: Divulgação/Benfica)
Pé-Canhão como é conhecido no Benfica, participou de um evento com ex-jogadores do clube, em 2016, e é sempre bem recebido em Portugal (Foto: Divulgação/Benfica)


Maior artilheiro brasileiro da história do Benfica até o ano passado, Isaías é ídolo em Portugal, onde até foi comparado a Eusébio e Pelé. Mas a fama, curiosamente, não chegou ao seu estado de origem, onde sua história é pouco conhecida.

“Isaías é muito ídolo em Portugal, era uma coisa de maluco, parava o trânsito. Ele é capixaba? Não sabia!”, surpreende-se Maurício Rodrigues, ex-atacante carioca que atuou no futebol português e hoje mora em Vila Velha.

Nascido em Linhares, em 17 de novembro de 1963, Isaías Marques Soares chegou a Vitória com 17 anos para ajudar seu irmão Israel, que era ladrilheiro. A história de um dos maiores atacantes do Benfica começou no Porto Alegrense, clube amador de Cariacica, onde ele e seu irmão jogavam.

Isaías chegou a atuar no time júnior do Vitória, antes de viajar para o Rio de Janeiro, por indicação de seu amigo Wilson Caulit, para fazer testes e ser aprovado na base do Fluminense.

O capixaba se profissionalizou no Friburguense e se destacou na Cabofriense. Depois, arrumou as malas e foi brilhar em Portugal, por Rio Ave, Boavista, Benfica e Campomaiorense.

Nos “Encarnados”, entre 1990 e 1995, foi onde ganhou fama e o apelido de Profeta, pelo nome bíblico, e Pé-Canhão, pela força no chute, que o ajudou a alcançar 71 gols em 178 jogos pelo Benfica.

Ele era o maior artilheiro brasileiro da história do clube até 2017, quando sua marca foi ultrapassada por Jonas, que ainda está no clube português e já fez 122 gols em 158 jogos.

De Cabo Frio (RJ), onde reside, Isaías conversou com a reportagem de A Tribuna e, aos 54 anos, contou suas histórias de ídolo em Portugal.

A Tribuna - Quais são suas lembranças de Linhares?
Isaías - Tomei muito banho no Rio Doce. Peguei a época de América e Industrial, era uma guerra. Eu era americano e botava uma escada para pular o muro e ver os jogos. É a mesma coisa entre os estádios do Benfica e do Sporting, um perto do outro.

A Tribuna - Antes do sucesso, você foi reprovado no teste no Belenenses. O que aconteceu?
Isaías - Fizeram um coletivo de 20 minutos e disseram que eu era muito lento e que queriam o Tita, que jogou no Vasco e no Flamengo. Eu falei: “Tudo bem, só que meu nome tem dois ‘is’, dois ‘as’ e dois ‘s'. Vou retornar e mostrar que eu tinha condições de jogar aqui e em qualquer clube”. Assim foi.

A Tribuna - Depois do Boavista, os três grandes te procuraram: Benfica, Porto e Sporting. Por que escolheu o Benfica?
Isaías - Porque tinha Mozer, Ricardo e o Valdo, da Seleção. Fiz a escolha certa. Foi o estacionário de uma carreira brilhante. No Benfica só tinha jogador de Seleção. O único patinho feio era o Isaías, que veio do Boavista, da Cabofriense, que eles nem sabiam que existia.

A Tribuna - Quais os melhores jogadores com quem atuou?
Isaías - De brasileiros, Ricardo, Mozer e, Valdo. Em um jogo de amigos de Eusébio, joguei contra Rivellino. Em outro, ao lado do Rei Pelé. Joguei com João Pinto, grande jogador português, com o goleiro Michel Preud'Homme, com Rui Costa. Joguei contra o Figo...

A Tribuna - Em que momento você foi comparado a Eusébio e Pelé?
Isaías - Foi depois de a gente eliminar o Arsenal na Inglaterra (eliminatórias da Liga dos Campeões de 91/92 ), fiz dois gols lá e tinha ex-jogadores assistindo. Então teve esse comentário e os jornalistas colocaram no jornal A Bola. Foi uma coisa maravilhosa porque ser comparado a duas figuras do futebol mundial, vindo da onde você veio, foi deslumbrante.

E o abraço que recebeu de Guardiola?
Isaías - Foi em um jogo contra o Barcelona, na Liga dos Campeões. Ele disse “vou te dar um abraço que tu és um grande jogador, te admiro muito, só que vou ter que te marcar”. E eu disse “tudo bem, sem problema”. Nós tomamos um pau lá e em um lance que eu ia fazer o gol, o Guardiola deu um carrinho por trás e tirou certinho a bola.

A Tribuna - Você tinha o sonho de defender a seleção portuguesa?
Isaías - Sim. Tinha me naturalizado para ir para o Benfica. O presidente do Boavista fazia parte da liga de clubes e perguntou se eu tinha interesse em jogar por Portugal. Mas havia uma polêmica de dentistas brasileiros que trabalhavam lá, já que no Brasil eles se formavam com um ano a menos que os portugueses. Então, todo brasileiro passava por isso. Aí achei melhor não jogar porque não queria ter problemas nas ruas.

A Tribuna - Mas jogou pela seleção portuguesa no futebol de areia...
Isaías - Naquela época era mais para diversão, reunia ex-jogadores, tinha os Mundialitos, entre 97 e 98. Foi bom. Depois se tornou profissional e os velhinhos acabaram saindo.

A Tribuna - Você é reconhecido em Portugal até hoje, dá entrevistas. Como é isso?
Isaías - Sim, as pessoas te reconhecem na rua, falam com você, pedem fotos e autógrafos. Está na história.

A Tribuna - Você é muito ídolo lá, conhecido na Europa e em Cabo Frio, mas não no Espírito Santo. Por que acha que isso aconteceu?
Isaías - Sai daí muito cedo. Antigamente não se falava e não se mostrava tanto futebol como hoje. Se na minha época a tecnologia fosse a de hoje, com certeza aí eu seria muito reconhecido.

Os números
178 jogos o capixaba Isaías tem pelo Benfica
71 gols ele fez pelo clube Português

Pé-Canhão e a coleção de golaços

Isaías comemorando um dos dois gols que marcou na vitória por 3 a 1 contra o Arsenal, na Inglaterra, pela Liga dos Campeões (Foto: Divulgação)
Isaías comemorando um dos dois gols que marcou na vitória por 3 a 1 contra o Arsenal, na Inglaterra, pela Liga dos Campeões (Foto: Divulgação)
Com força impressionante na finalização com as duas pernas, Isaías marcou 71 gols pelo Benfica. Mas o gol que o “Pé-Canhão” classifica como o mais bonito foi justamente seu primeiro em Portugal.

Aconteceu em 1987, na vitória do Rio Ave contra o Braga por 3 a 0, pelo Campeonato Português. “Ganhei uma bola no meio de campo, em velocidade, e a quarenta metros do gol fiz por cobertura”, lembra o capixaba, orgulhoso.

Entre os muitos gols pelo Benfica, o “Profeta” escolhe três, sendo que dois deles tiraram o Arsenal nas eliminatórias da Liga dos Campeões 91/92. Depois do empate em 1 a 1 no jodo de ida, disputado em casa, os “Encarnados” precisavam vencer em pleno Highburry, em Londres, e contaram com a estrela de Isaías. O capixaba empatou o jogo, com chute de canhota no ângulo, de fora da área.

Na prorrogação, o Pé-Canhão calou o estádio, driblando dois marcadores, que se trombaram, e chutando firme no canto direito, para definir a vitória por 3 a 1. Outro marcante foi na vitória contra o Sporting, por 6 a 3, importante para a conquista do título português da temporada 1993- 1994. Um dos dois gols de Isaías saiu de uma bela jogada. Peneira cruzou rasteiro, João Pinto deixou a bola passar com um corta luz e o Pé-Canhão fuzilou.

Capixaba foi o primeiro brasileiro na Premier League

Após sucesso em portugal, Isaías se aventurou na Inglaterra, onde defendeu o modesto Coventry City (Foto: Divulgação)
Após sucesso em portugal, Isaías se aventurou na Inglaterra, onde defendeu o modesto Coventry City (Foto: Divulgação)

Isaías não marcou história somente em Portugal, onde conquistou muitos títulos e é ídolo até hoje. O capixaba foi também o primeiro brasileiro a atuar na Premier League, na Inglaterra.

O feito aconteceu em 1995. Depois de cinco anos no Benfica, o atacante, então com 32 anos, negociava sua renovação contratual com o clube e queria mais três anos de vínculo, mas a diretoria ofereceu contrato de um ano.

Isaías, então, resolveu aceitar a proposta do modesto Coventry City, da Inglaterra.

“Como tinha feito aquele jogo contra o Arsenal (Liga dos Campeões), um comentarista de uma televisão, que era treinador, foi para esse clube, fez contato e acabei indo”, explica.

Mirandinha, ex-atacante de Corinthians e Palmeiras, já tinha atuado pelo Newclastle no Campeonato Inglês de 1987. Porém, Isaías foi o primeiro a jogar a reformulada versão do torneio, que começou em 1992, depois que os clubes romperam com a Football League com o objetivo de aumentarem suas receitas de direitos de transmissão de televisão.

O meia Juninho Paulista também disputou a edição de 1995/1996, pelo Middlesbrough, mas entrou apenas na 12ª rodada, enquanto Isaías estreou na segunda.

O capixaba, entretanto, não se adaptou à Terra da Rainha e fez apenas dois gols em dois anos no clube inglês.

Porém, pode se orgulhar de ter feito um gol diante do Chelsea, no Stamford Bridge, no velho estilo do Pé-Canhão, no cantinho, aproveitando cruzamento rasteiro. O gol fez o time reagir, depois de estar perdendo por 2 a 0, e buscar o empate, em 2 a 2.

O Profeta se recorda com carinho da experiência de ter desbravado os caminhos da Premier League para os brasileiros.

“Aconteceram muitas coisas boas na minha vida como jogador profissional e essa foi mais uma. Eu nem imaginava que eu seria o primeiro. Está na história, né?”.

A opção de ir para a Inglaterra, porém, foi corajosa. “Queria encerrar minha carreira no Benfica.

Hoje eu aceitaria o contrato de um ano, mas naquela época não era a minha opção. Eu não era muito de me abater com situações adversas, elas me fortaleciam”.

Depois da passagem de dois anos sem muito brilho pela Inglaterra, Isaías enfrentou dificuldades para voltar à Portugal. Seus antigos clubes, Rio Ave, Boavista e Benfica não o queriam por causa dos 34 anos.

Com um contrato de risco, o Profeta, então reforçou o modesto Campomaiorense e salvou o time do rebaixamento.

“Disseram que eu estava velho, mas fui o vice-artilheiro do campeonato, com 18 gols”.

Pioneirismo na Inglaterra

Mirandinha foi o primeiro brasileiro a jogar na elite do Campeonato Inglês. Em 1987, foi contratado pelo Newcastle.

Após a criação da Premier League, porém, na temporada 1992/93, que marcou uma revolução na organização do futebol inglês, o capixaba Isaías foi o primeiro brasileiro a jogar a competição, contratado pelo Coventry City em 1995.

O meia Juninho Paulista também disputou a edição de 1995/1996, só que pelo Middlesbrough, e estreou na 12ª rodada, enquanto Isaías fez sua estreia na segunda rodada.

Juninho Paulista, entretanto, foi o primeiro brasileiro ídolo no futebol inglês, eleito o melhor jogador da temporada 1997.

Filho segue passos do Profeta

A trajetória de Isaías, o Profeta, Já é seguida por seu pupilo. Assim como o pai, Lucas Cardoso passou pela base do Fluminense, atuou na Cabofriense e agora tenta fazer sucesso no futebol português.

Por indicação do pai, o meia de 22 anos acertou com o Atlético de Reguengos no último dia 20.

“Eu evito comparações, mas não temos como fugir delas né? (risos). Tomara que dê tudo certo como deu para ele. Força de vontade para isso acontecer nunca vai me faltar. Só depende de mim!”, garante Lucas, que nasceu em Cabo Frio.

Foi na base do principal clube da cidade que ele teve destaque e foi o vice-artilheiro do Campeonato Carioca Sub-20, em 2017, com 11 gols, terminando à frente de Lincoln, com nove, e Vinicius Júnior, com cinco, pelo Flamengo, e atrás apenas de Paulo Vitor, ex-Vasco, que fez 13 gols.

“Foi um dos momentos mais especiais. Não sou um jogador de fazer gol, um 9 nato, e mesmo assim consegui fazer gols jogando de segundo volante e de meia”, lembra.

Lucas Cardoso e Isaías (Foto: Divulgação/ Benfica)
Lucas Cardoso e Isaías (Foto: Divulgação/ Benfica)

Mesmo há poucos dias em Portugal, Lucas Cardoso já tem percebido a fama do Pé-Canhão.

“São tantas as histórias que fico até perdido. Teve um que falou que na escola todo mundo escolhia um jogador e ele era só o Isaías porque era o que chutava mais forte (risos)”.

Esta não é a primeira vez que o pai abre as portas para o filho em Portugal. Em 2016, Isaías conseguiu um teste no Benfica, mas Lucas teve um estiramento no joelho direito e precisou retornar ao Brasil, mas ainda quer virar ídolo dos Encarnados, assim como o pai: “É meu maior sonho!”

Isaías hoje trabalha como servidor público na Secretaria de Esportes de Cabo Frio, mas vê no filho uma oportunidade de iniciar uma carreira como empresário no futebol: “Lucas é até melhor que eu. Qualidade impressionante, só tem que ter mais disposição e força que com certeza vai se dar bem”.

“Isaías era uma estrela!”

Diferentemente de Isaías, Mauro Soares é muito conhecido no Espírito Santo pelo que fez como jogador e técnico no principais clubes do Estado. O ex-meia, porém, se recorda de toda a fama internacional do amigo, que se tornou ídolo no Benfica.

“Antes de eu ser vendido para o Belenenses, ele me falou para procurar por ele quando chegasse lá. Mas quando vi o que era Isaías em Portugal eu pensei: 'Pô, não vou incomodar o cara, ele é estrela, está no jornal toda hora!'”, lembra Mauro Soares, que saiu da Desportiva para o futebol português, em 1992, e também jogou no Sporting.

Sete anos depois, os capixabas atuaram juntos no Campomaiorense e chegaram ao vice-campeonato da Taça de Portugal de 1998/1999, perdendo para o Beira-Mar na final, por 1 a 0. A contratação de Mauro Soares foi indicação de Isaías.

“Somos amigos, nossas famílias conviviam juntas na cidade, que era muito pequena. Eu precisava dele em campo. Falava para ele roubar as bolas e me entregar”, brinca o Profeta.

Mauro Soares rebate: “Quem cobrava falta era ele. Aí falei: 'Quando você sofrer falta, quem bate sou eu. Quando eu sofrer, você bate' e ele aceitou. Foi uma tática porque ele jogava lá na frente então quem ia sofrer mais falta?”.

Mauro Soares falou do amigo (Foto: Henrique Montovanelli — 03/03/2015)
Mauro Soares falou do amigo (Foto: Henrique Montovanelli — 03/03/2015)