Entre polentas, tapetes e grotões

“Discutir política é a nova mania dos brasileiros, dizem. Melhor que seja assim, tipo antes tarde do que nunca e, convenhamos, chega de só futebol e sacanagem na roda”

Conhecida entre os capixabas como a “capital da polenta”, Venda Nova do Imigrante sai dessas eleições como o município que deu a maior vitória percentual a Jair Bolsonaro (PSL), 81,04% dos votos. É seguido por Castelo, terra dos tapetes religiosos, onde o capitão da reserva obteve 79,79% dos votos. Isso explica em parte a neutralidade adotada no segundo turno por um ilustre filho daquela terra, o governador eleito Renato Casagrande (PSB). Na sequência aparecem Vargem Alta, com 77,23% dos votos, e Cachoeiro, onde 75,27% dos votos foram para Bolsonaro.

Chama atenção o fato de tanto Venda Nova quanto Castelo e Vargem Alta, três primeiros colocados no ranking percentual, serem localidades de forte influência dos imigrantes italianos, daí que alguma parcela dos votos resultou da identificação de origem com Bolsonaro. Embora a maioria tenha votado mesmo por rejeição ao PT e ainda por acreditar que o capitão da reserva vai botar ordem na casa. Afinal, combate à corrupção e segurança foram suas principais bandeiras.

Em Cachoeiro, maior colégio eleitoral do Sul, houve esmagadora vitória de Bolsonaro, que só perdeu para Haddad (PT) em dois bairros da cidade, Monte Alegre e Monte Líbano. Essa vitória esmagadora, vale registrar, provocou certo espanto entre alguns cachoeirenses ausentes, principalmente aqueles que consideram a cidade a ”Atenas capixaba”, adicionando no rótulo certa dose de exagero gerada pelo conhecido bairrismo local.

Um desses indignados, jornalista que reside no Rio de Janeiro e pertencente a uma tradicional família cachoeirense, postou nas redes sociais sua indignação. Disse que não pretende voltar nunca mais à cidade que “optou pelo obscurantismo”, e desde já desautorizou seu sepultamento na terra natal outrora tão venerada. Amigos acham que aí ele pegou pesado, até porque o Rio de Janeiro também bolsonariou. Amigos esses que perdem o enterro, mas não perdem a piada.

Mesmo considerando que o indignado cachoeirense venha a mudar de ideia, vale sugerir a ele como compensação regional visitar Conceição da Barra – cidade da escritora Bernadete Lyra –, que deu expressiva vitória percentual ao candidato do PT, 60,72% dos votos. Terá ainda como opção ir ali perto em Ponto Belo, onde Haddad alcançou seu maior índice no Espírito Santo, 64,14% dos votos, e Mucurici, que lhe deu 61,41% dos votos.

Não muito longe aparecem Águia Branca, Pedro Canário e Montanha, que também deram maioria dos votos ao candidato do Lula. Em comum, são lugares rotulados de “grotões eleitorais” devido ao reduzido número de votantes e sujeitos a fortes influências de grupos locais, como família, igreja, cooperativas, sindicatos etc. O mesmo rótulo, por sinal, agora é aplicado indistintamente aos estados do Nordeste por eleitores de Bolsonaro apontando o mapa das apurações.

Na principal área urbana do Espírito Santo, Bolsonaro conquistou 68,18 dos votos em Vila Velha, 58,28% na Serra, 63,19% em Vitória, e 60,41% entre eleitores de Cariacica. Vale observar que em alguns bairros considerados de alto risco social, como Terra Vermelha (Vila Velha) e Planalto Serrano (Serra), o candidato do PT conquistou maioria dos votos um pouco também por receio de endurecimento ao narcotráfico sinalizado pelo futuro presidente.

Ainda que sejam bairros também de trabalhadores, com famílias de bem, esses cidadãos vivem sujeitos às “leis” locais de circulação e comportamento impostos pelo narcotráfico. E entre tantos fakes news registrados durante a campanha, houve um, bastante ilustrativo e no clima da disputa, espalhado em Terra Vermelha. Dava conta de que, vencendo Bolsonaro, ali seria instalada uma base militar.

Agora, entre polentas, tapetes e grotões, paira a constatação que pipoca nas redes sociais: discutir política é a nova mania dos brasileiros, dizem. Melhor que seja assim, tipo antes tarde do que nunca e, convenhamos, chega de só futebol e sacanagem na roda.