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Empolgação e espanto
Luiz Trevisan

Empolgação e espanto

Aquelas máquinas iriam poupar nosso tempo. Automaticamente, sobraria mais tempo para o lazer e a vida particular de cada um. Essa foi a grande mentira do mundo digital

Uns dez dias ou pouco mais. Acho que foi esse o curto espaço de tempo em que estive encantado pelo computador, quando ele entrou na minha vida e de meio mundo. Lá na “escolhinha” criada na redação para capacitar jornalistas e aposentar as antigas máquinas de escrever – remington e olivetti predominando – ouvi de um dos instrutores que a partir dali nossas vidas iriam mudar significativamente.

Era quase um novo admirável mundo novo sendo inaugurado naquele ano de 1992. Além de exaltar todos os benefícios que iriam tornar mais ágeis, precisas e produtivas as nossas funções, aquelas máquinas iriam poupar nosso tempo. Então, automaticamente, sobraria mais tempo para o lazer e a vida particular de cada um. Essa foi a grande mentira do mundo digital. Logo constatei que o computador, como toda engrenagem capital, nos torna dependente e passa a exigir mais e mais da gente.

A rotina das pessoas que hoje trabalham informatizadas comprova isso. Antes você encerrava uma jornada diária e saia para o lazer ou compromissos familiares. Entre a noite e o dia havia pausa, silêncio e desconexão. Agora não, pulsa a todo instante a informação em tempo real. O computador, na palma da mão, chama a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer dia, principalmente no “feriadão. É a chamada “escravidão” digital. E quanto mais se amplia a cobertura, menos área de escape. Já não cola aquela desculpa do “estava numa área sem sinal”.

Dias atrás, a mídia informou que a função de datilógrafo será extinta do serviço público.

Datilógrafo, para quem não sabe, é uma espécie de ancestral do computador, quase lá na idade média da tecnologia, quando a velocidade era outra. Também taquígrafos andam com os dias contados, assim como arquivistas, bibliotecários e outros. Porém, do ponto de vista social, o mais preocupante são aquelas funções que dão empregabilidade a milhões, como telemarketing, caixas, porteiros, vigias, cobradores, babás, todos substituídos pela eletrônica, mais cedo ou tarde.

Então, para não engrossar ainda mais a legião dos desempregados – e já são 13,5 milhões de brasileiros abaixo da linha de pobreza –, e enquanto a capacitação tecnológica não se universaliza, talvez seja o caso de estimular funções que não abrem mão do olho humano, da empatia que nenhuma máquina tem. Por exemplo: cozinheiro, barbeiro, enfermeiro, manicure. Ninguém, em tempo algum, vai se sentir seguro e confortável diante de um robô preparando sua comida, aparando a barba, a unha, aplicando uma injeção.

E lembra aquele famoso anúncio empreendedor, considerado um achado, “Pequenas empresas, grandes negócios”? Por mais estimulante e tentador que seja abrir uma empresa, é tarefa complicada mantê-la. Os tais impostos, encargos sociais, a burocracia cartorial etc. Dados do IBGE apontam que do total de negócios abertos em 2012, quase 60% fecharam as portas em cinco anos.

Esse foi o tempo médio da empolgação, na busca por alternativa de emprego e renda.

Já o tempo do espanto, esse é impreciso e variável. Pode durar a expectativa da chegada das manchas de petróleo no litoral – lama e óleo se juntam em Regência –, a perspectiva de um negócio ou as brigas, virtuais e físicas, sobre a liberdade do Lula. A essa altura, verão politicamente pacificado, praias convidativas e garantia de renda parecem ser apenas sonhos de noites de verão.

Óleo em Regência, Linhares. (Foto: Divulgação/Prefeitura de Linhares)
Óleo em Regência, Linhares. (Foto: Divulgação/Prefeitura de Linhares)

Por vezes, assim como num trecho da peça “Sonho de uma noite de verão”, escrita por Shakespeare, lá em 1590, ainda hoje “pessoas apaixonadas veem o que imaginam, não o que seu olhos enxergam”, mesmo com toda a tecnologia e conhecimento. Olha aí empolgação e espanto de mãos dadas. E ainda existem aqueles que não se empolgam nem se espantam com absolutamente nada, feito personagem descrito por Clarice Lispector: “Um incêndio não o faria levantar-se agora”.


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