Nossos ossos imortais

Doutor João Responde
Doutor João Responde
Doutor João Evangelista

Deus fez Adão cair num profundo sono e, com as suas mãos, retirou uma de suas costelas para dar início à mulher, sua mais sublime criação. Poderia Deus criar a mulher do barro, como fez com Adão, e soprar em suas narinas o fôlego de vida.

Mas ele escolheu, com toda a sua sabedoria, soprar a vida em um osso, mais precisamente uma costela. Este osso abraça e protege o coração e os pulmões, cobrindo-os cuidadosamente como uma mãe faz com seu filho.

A costela também se prende à coluna vertebral e à medula óssea, este tutano que produz sangue, que dá vida.

A história do ser humano começa pelo sistema esquelético, de onde, entre ossos, tendões, ligamentos e cartilagens, uma costela foi retirada.

O osso é um tecido dinâmico, cuja principal característica é a mineralização de sua matriz. Ele compõe a maior parte do esqueleto e participa de um processo contínuo de remodelamento, com a produção de ossos novos e a degradação de ossos velhos.

Em seu interior existem várias lacunas que contêm células denominadas osteófitos. Estas estruturas possuem prolongamentos chamados canalículos, que se unem a outros canalículos das lacunas vizinhas, formando, assim, uma rede em toda a massa de tecido mineralizado.

Durante a vida embrionária, o esqueleto é cartilaginoso, o qual será substituído quase que totalmente por um esqueleto ósseo a partir do segundo mês da vida intrauterina.

O esqueleto cartilaginoso se ossifica entre os 18 e 20 anos de idade, cessando o crescimento dos ossos. Na fase adulta existem cartilagens somente em locais onde a flexibilidade é importante, como a ponta do nariz, orelha, laringe, parede da traqueia e extremidades dos ossos que se articulam.

O esqueleto de um recém-nascido contém cerca de 270 ossos, enquanto o do adulto é formado por aproximadamente 206 ossos. Isto ocorre, pois os bebês possuem alguns espaços entre as placas dos ossos, chamados de fontanela.

Esta estrutura, conhecida como moleira, facilita a passagem do bebê no momento do parto. Com o tempo ela se fecha e alguns ossos se fundem.

Os ossos possuem as seguintes funções:
– Proteção: A caixa torácica guarda certos órgãos vitais, como o coração, os pulmões, o fígado e os rins. O cérebro é protegido pelo crânio. O esqueleto também protege a bexiga urinária, assim como os órgãos reprodutores internos, como o útero. Nas mulheres, a pelve protege o feto em desenvolvimento.
– Sustentação: Os ossos servem para suportar os tecidos moles do corpo e fixar os músculos. Em outras palavras, ele é a nossa armação. Sem a estrutura óssea, o corpo não poderia se manter em pé.
– Locomoção: Os ossos são formados por um material rígido que sustenta os tecidos, permitindo os movimentos, como levantar, agachar, flexionar os braços e pernas, etc.
– Hematopoese: É o processo pelo qual as células do sangue formam, desenvolvem e amadurecem alguns elementos do sangue, como eritrócitos, leucócitos e plaquetas, a partir de células-tronco encontradas na medula óssea. Estas são responsáveis pela formação de todas as células e derivados celulares que circulam no sangue.
– Reserva de minerais: Os ossos estocam alguns minerais importantes para o organismo, como o cálcio, o sódio e o fósforo. Estes minerais são transportados para outras regiões do corpo por meio do sistema vascular.

Quando ocorre diminuição do nível de cálcio no sangue, sais de cálcio são mobilizados dos ossos para suprir a deficiência do organismo. É por isso que os ossos do corpo humano podem permanecer intactos por muitos anos, mesmo depois que morremos.

Quando a alma sobe e o corpo desce, tudo se desfaz. O que mais dura, é o que mais se esquece: nossos ossos imortais.

 

João Evangelista Teixeira Lima é clínico geral e gastroenterologista


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