Doença virou moda

“Doutor João, hoje eu não estou sentindo nada! Será que isso é muito grave?”. Como não achar graça diante desse desabafo inusitado? Apesar disso, a mensagem é bastante séria, pois mostra a perigosa fronteira entre saúde e doença, onde médicos e pacientes costumam deambular.

Algumas pessoas se sentem doentes, sem estarem doentes; outras estão doentes, mas não se sentem doentes. Doença não é sintoma de saúde, assim como saúde não é sintoma de doença.

O aumento de conhecimento e a facilidade de comunicação têm produzido grande quantidade de diagnósticos e indivíduos medicados.

É óbvio que remédios salvam vidas. Seria um contrassenso pensar diferente. Depressões, por exemplo, existem e devem ser medicadas. Entretanto, devemos pensar quando foi que abandonamos as condições necessárias para enfrentar as vicissitudes existenciais, sem remédios?

Queixar-se de ansiedade também faz parte da rotina. E o diagnóstico de déficit de atenção está tão em alta que, ninguém mais se lembra de que existem indivíduos distraídos.

Muitas pessoas procuram um diagnóstico psiquiátrico simplesmente porque não se enxergam dentro de um padrão de felicidade.

Todos nós sofremos, é verdade. Viver também dói, mas passa. Contudo, mesmo não passando, o sofrimento fortalece, e sem os efeitos colaterais que a maioria das medicações provoca.

Existem enfermidades que geram status e viram moda. Algumas delas até carregam certo charme.
O conhecimento científico normalmente caminha da literatura técnica para os veículos de divulgação e desses para a mídia leiga

É importante saber que doenças existem e devem ser tratadas. O risco é que muitas vezes a informação vai sendo distorcida, levando a um abismo entre o que os cientistas dizem e o que as pessoas repetem. Na ânsia de encontrar explicações e soluções para seus sofrimentos, muitas vezes os indivíduos começam a ver enfermidades onde não tem, recorrendo a remédios inutilmente.

Vamos citar a vitamina D, fundamental para o sistema imunológico e para os ossos, pois ajuda na absorção do cálcio. Embora possa ser encontrada em alimentos como ovos e sardinha, a forma mais eficaz de sintetizá-la é por meio da exposição ao sol. Embora o Brasil seja um país ensolarado, tomar vitamina D virou panaceia.

De uma hora para outra, todo mundo se tornou intolerante ao glúten e à lactose, tornando o pão, esse alimento bíblico, um carrasco alimentar.

Dor abdominal, flatulência, eructação e diarreia podem realmente ser efeitos da intolerância à lactose. Com a idade, nossa capacidade de absorver esse açúcar presente no leite e seus derivados diminui. Todavia, algumas pessoas sadias podem apresentar esses mesmos sintomas caso bebam grandes quantidades de leite.

O erro por trás do modismo da dieta sem lactose é acreditar que o açúcar do leite é um veneno universal.

Desconforto abdominal, indisposição, diarreia e febre podem traduzir intolerância ao glúten. De uma hora para outra, milhares de pessoas se descobriram intolerantes à proteína que está presente em comidas como trigo, centeio e cevada.

O glúten é uma proteína de difícil digestão. É normal que alguns indivíduos se sintam melhor se pararem de comê-lo. Mas a intolerância ao glúten não tem diagnóstico laboratorial, só clínico, ao contrário da doença celíaca.

Pacientes confundem uma doença com a outra e saem cortando o glúten da dieta, de forma indiscriminada, gerando incômodos nutricionais e gastos financeiros.

Não suportando a simplicidade da saúde, algumas pessoas usam a enfermidade como ferramenta de vaidade. Muitas vezes, eu preciso dizer ao paciente que prefiro não tirar sua doença enquanto ele não estiver pronto para deixá-la.

João Evangelista Teixeira Lima é clínico geral e gastroenterologista


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