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Dentro do serpentário
Luiz Trevisan

Dentro do serpentário

É comum pessoas se envolverem com atividades de alto risco: bombeiros ganham a vida com o fogo, mas também podem ser vítimas dele, assim como o eletricista está sujeito ao choque, o surfista à onda, o alpinista à montanha, o piloto ao veículo, o pescador ao mar, o médico ao doente, vida e morte tão perto

Você sabe o que faz um herpetólogo? Se acaso surgir em uma dessas enquetes de redes sociais ou perguntas de programas de auditório de TV, levando ao pé da letra, muita gente será induzida ao erro, pois não tem nada a ver com o tratamento de herpes, refere-se ao especialista em répteis.

Assim como existe o encantador de serpentes, há aqueles encantados com elas. Não tem gente que em vez de cães e gatos prefere cobras como animais de estimação? Agora mesmo as redes replicam o caso da mulher que criava 140 serpentes em uma casa, em Battle Ground, Indiana, EUA, e foi encontrada morta com uma delas enrolada em seu pescoço.

Laura com cobra enrolada no pescoço (Foto: Reprodução/Facebook)
Laura com cobra enrolada no pescoço (Foto: Reprodução/Facebook)

Há também aqueles que levam a vida estudando o comportamento desses répteis com fama de ardilosos, inconfiáveis. E não somente por causa daquele fuxico bíblico feito com a maçã, Adão, Eva e tal. Karl Patterson Schmidt foi um renomado herpetologista norte-americano, estudou e batizou várias cobras. Em setembro de 1957, trabalhava no Museu de História Natural de Chicago quando veio até ele um funcionário do Lincoln Park trazendo uma cobra de 76 centímetros apreendida.

Karl identificou a cobra como uma boomslang, espécie da África Subsaariana, venenosíssima. E ao manipulá-la, num descuido incomum, acabou picado no polegar. Logo, tratou de chupar a ferida, porém não procurou atendimento médico. Preferiu ficar anotando num diário os efeitos do veneno em seu corpo. Andou de trem, teve enjôos, frio, tremores, vômito, febre, sangramento nas mucosas, toda aquela agonia dos envenenados, até a paralisia respiratória algumas horas depois.

A curiosidade matou o cientista ou ele tinha alguma propensão suicida, a começar pela escolha da profissão? Talvez um pouco das duas coisas ou nada disso. Simples e tragicamente, mais do que ninguém, ele sabia que o antídoto para aquela serpente só existia na África. E naquela época ainda não havia o antiofídico multifuncional. Tampouco recorreu a algum tratamento alternativo.

Considerou que não havia nada a fazer, exceto dar sua derradeira contribuição à profissão e ciência detalhando suas últimas horas. Nem todos conseguem a intensa dramaticidade de um último relato consciente. Lembra do tal bilhete do suicida, a dramaticidade tão invejada por Nelson Rodrigues? Karl Schmidt andou por uma via paralela sem saída, sabendo que não havia retorno nem escape. E provou do veneno que sempre esteve tão próximo de sua vida.

É comum pessoas se envolverem com atividades de alto risco: bombeiros ganham a vida com o fogo, mas também podem ser vítimas dele, assim como o eletricista está sujeito ao choque, o surfista à onda, o alpinista à montanha, o piloto ao veículo, o pescador ao mar, o médico ao doente, vida e morte tão perto. Há um fascínio por aquilo que mete medo, a psicanálise explica. Por exemplo: sonhar com cobra pode ser uma opaca reflexão sobre impulsividade, postura defensiva e estagnação. Também pode significar presságio de engano e traição. ”Fulana é uma cobra...”.

Pesquisa realizada em Araponga, comunidade no interior de Minas Gerais, indicou que maioria da população, principalmente a de baixa escolaridade, não sabe distinguir se a serpente é ou não venenosa, e que muitos preferem matar primeiro o réptil para perguntar depois. Então, matar a cobra é a forma de livrar-se do medo e da angústia, diz a psicanálise. No popular, “matar a cobra e mostrar o pau” virou bordão de duplo sentido. Contudo, é preciso considerar que a cobra que mata é a mesma que pode salvar com seu veneno virando remédio em laboratório.

E há ainda outras facetas favoráveis às serpentes. Elas podem representar, num sonho ou na vida real, o ciclo da renovação, pois trocam facilmente de pele. E também de independência, pois sempre abandonam os ovos que estão para eclodir. Para os chineses, hebreus e árabes, a cobra está na origem de todo poder mágico. Venerada na antiga Babilônia, no México e em muitos outros lugares do mundo na figura de deuses serpentiformes, que representavam a fecundidade da terra, a força criadora, os segredos herméticos, os mistérios infinitos do divino.

Todavia, apesar da sacralidade atribuída, este é um animal ctônico (das cavidades da terra) funesto na essência. É veneno, embora possa ser salvação. É vida, morte, sedução, repulsa, atração, traição, tudo misturado no mesmo tubo de ensaio. Quantas pessoas você conhece que podem ser associadas? Por vezes, “viver é ver Vitória”, como diria poeticamente Marien Calixte. Mas viver também pode ser comparado a um arriscado exercício diário de manter-se salvo dentro do serpentário.


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