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Dar-se o luxo
Martha Medeiros
Martha Medeiros

Martha Medeiros


Dar-se o luxo

Há quem celebre o aniversário do cãozinho com um garden party para 300 convidados, quem contrate meia dúzia de duplas sertanejas para cantar na formatura do caçula, quem encomende três vestidos de gala para a filhota trocar durante a festa de 15 anos e mais uma sequência de torração de dinheiro que não é da minha conta, eu sei. Cada um com seus luxos. Você e eu também temos alguns.

Ando me dando ao luxo de dormir um pouco mais, coisa que até um tempo atrás eu me permitia com moderação. Também tenho me dedicado à DR (discutir a relação) comigo mesma. Ando a fim de me relacionar melhor com esta mulher que já não acorda tão cedo e que resolveu investir mais na vida pessoal.

Não vou abandonar o batente, a loucura não chegou a esse ponto, mas pretendo cuidar mais do coração (nada a ver com colesterol, e sim com romance). Parece que o nome disso é viver a vida.
Não que eu já não me dedicasse a esse projeto, mas às vezes é preciso dar uma parada para redefinir o que é vida, afinal.

E a parada será em grande estilo. Resolvi tirar um mês de férias, 30 dias corridos, sublime exagero. Viajarei para fora do País, onde mora minha filha mais velha, que não vejo há quase oito meses – matar as saudades dela é minha atual extravagância.

Além disso, reencontrarei também alguns amigos e aproveitarei para garimpar histórias que poderão ser transformadas em crônicas. A possibilidade de renovar meu olhar e meu espírito é algo que me faz abrir a carteira, e pode custar até menos que três vestidos de gala.

Luxo é estar com quem se gosta, afinar a sintonia com os filhos, se dedicar ao amor. Enxergar, escutar, estar: conjugar mais os verbos que são de doação, não apenas os que contemplam o ego. Todos os luxos são caros, mas podem ser valiosos em outro sentido.

Os textos para os próximos domingos foram entregues com antecedência ao jornal (cresci ouvindo – quem vai ao ar, perde o lugar –, melhor prevenir), então meu sumiço não será percebido, mas, como acabo de revelar, não estarei aqui, e sim na cidade mais glamourosa do mundo, Paris, me dando luxos que passarão longe da exuberante Place Vendome.

Vou em busca de caminhadas pelas vielas, leituras em parques, conversas em mesas de calçada, passeios pela beira do rio e o famoso savoir vivre francês, especialidade da casa.

E, ao retornar, pretendo dar continuidade a este – saber viver –, me dedicando menos às redes sociais, usufruindo o tempo em vez de virar escrava dele e organizando minha rotina em torno das minhas satisfações mínimas, e não de exigências desumanas. E quero rir mais, que a gente tem rido menos do que deveria. Determinar novas urgências.

Urgente agora é saborear os dias, não simplesmente vê-los passar.

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