Considerações sobre a ideia de nação

O termo nação adquiriu importância significativa em meados do século XVIII por meio da obra de Johann Gottfried von Herder (1744-1803) e suas críticas ao cosmopolitismo e universalismo amplamente difundidos pelo Iluminismo.

De fato, Herder é considerado o precursor do nacionalismo cultural, isto é, a ideia segundo a qual a nação é a personificação de uma cultura única e um modo de vida original, dotado, no entanto, de existência objetiva acima dos interesses particulares dos seus membros e da situação jurídico-territorial vigente.

Em seu entendimento, a nação seria uma unidade orgânica, cultural e linguística que manteria unidos os diferentes indivíduos não somente por meio de ideias, inclinações e modos de vida comuns, mas também por meio de leis e instituições transmitidas às outras gerações por intermédio da linguagem, dos hábitos e da educação, dando-lhes sua forma específica e plural. Em Herder, todavia, o sentimento nacional não era um fenômeno político, pois ele reprovava qualquer forma de dominação cultural de um povo sobre outro.

Por outro lado, a ideia de nacionalismo político relaciona-se à obra de Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), o grande filósofo alemão que, após assistir perplexo à invasão da Prússia pelas tropas napoleônicas, escreveu os Discursos à Nação Alemã (1808).

Decerto, o tema central dos Discursos é a educação nacional (National-Erziehung), a qual visa “formar indivíduos autônomos, independentes e autossuficientes; fundamentalmente determinados e capazes de fazer a coisa certa de forma resoluta e espontânea, sem hesitar e sem qualquer expectativa de recompensa material ou cálculos utilitários”, pois, para Fichte, a causa da catástrofe militar de seu país localizava-se no egoísmo e na aspiração de seus conterrâneos somente àquilo que é aprazível segundo critérios de bem-estar, ainda que em prejuízo de toda a comunidade.

O modelo educacional de Fichte influenciou particularmente o Ministro Wilhelm Humboldt (1767-1835), que deu início à completa reconstrução de todo o sistema de ensino alemão. Seus escritos foram, posteriormente, usados com fins políticos para fundamentar a edificação do novo império sob a regência do Chanceler Bismarck.

Em meados do século XIX, ganha relevo outro tipo de nacionalismo, o qual decorre da percepção do atraso econômico e do desejo de uma economia moderna. A esse respeito, cumpre ressaltar ter sido Friedrich List (1789-1846) um dos primeiros eruditos a associar o retardo econômico à ausência de unidade nacional. List acreditava que as nações encontram-se em diferentes níveis de desenvolvimento. Por isso, indicava como melhor política assegurar à indústria nacional posição dominante no mercado interno.

Isso aumentaria a concorrência entre os fabricantes, ao passo que a competitividade elevaria a produtividade, forçando a queda progressiva do preço dos bens manufaturados.

Quando a manufatura autóctone tiver alcançado posição dominante no mercado nacional, não faz mais sentido manter elevadas as tarifas, podendo-se reduzi-las à escala favorável ao livre comércio.

Dos ensinamentos da História, depreende-se, pois, que a ideia de nação tem sido, na prática, um conceito funcional, uma vez que tem servido a propósitos diversos, sejam eles culturais, políticos ou econômicos.

Flávio Santos Oliveira é doutor em História pela Ufes


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