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Cigarro da moda nos EUA é vendido ilegalmente no Brasil em redes sociais

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Cigarro da moda nos EUA é vendido ilegalmente no Brasil em redes sociais


Jull, o cigarro eletrônico: cada capsula equivale a um maço de cigarros (Foto: Divulgação)
Jull, o cigarro eletrônico: cada capsula equivale a um maço de cigarros (Foto: Divulgação)

Após virar moda entre adolescentes e dor de cabeça para a agência reguladora dos EUA, o cigarro eletrônico Juul chega ao Brasil com estratégias que parecem copiar as que fazem sucesso lá fora: publicações em redes sociais, divulgação via influenciadores digitais e estandes em festivais e baladas.

Por aqui, porém, são proibidas a venda, importação e propaganda de dispositivos eletrônicos para fumar. A fabricante Juul Labs, que hoje controla 70% do mercado americano de vaporizadores, nega ter revendedores brasileiros.

Ainda assim, o modelo pode ser adquirido pelo Instagram, sem burocracias. São mais de 20 perfis que anunciam a venda do produto "100% original". A entrega pode ser em uma semana, se ele vier direto dos EUA via correios, ou em uma hora, via delivery. Um "starter kit", para os iniciantes, custa em torno de R$ 450. Na promoção, pode sair por R$ 250.

O dispositivo, assim como outras marcas de e-cig, aparece em sites grandes como os das Lojas Americanas, Submarino, Shoptime ou Mercado Livre. Foi nesse último que Augusto, 24, comprou seu Juul.

O estudante tinha o hábito de fumar um maço de cigarro por semana e também maconha. Trocou os dois pelo vapor, que ajuda a "quebrar a ansiedade no trabalho", diz o pernambucano que preferiu não divulgar o sobrenome. Agora, ele compra pelo WhatsApp os "pods" – cartuchos com recargas de líquido contendo nicotina, que podem ter sabores como manga, menta, creme, pepino e custam em torno de R$ 160 a caixa.

Em Pernambuco, na última virada de ano na festa Réveillon Carneiros, o Juul podia ser comprado em uma loja e com vendedores ambulantes. A lixeira do evento ganhou uma nova versão: "bitucas e pods". Promoters também têm divulgado e vendido o Juul em festas no Rio e em São Paulo.

Para Adriana Carvalho, diretora jurídica da ONG ACT Promoção da Saúde (antiga Aliança de Controle do Tabagismo), o número de brasileiros que usam o Juul é pequeno – embora não haja estudo sobre a prevalência do e-cig no país – mas o marketing pode pôr abaixo os esforços que reduziram a população fumante.

"É uma propaganda sofisticada, sorrateira, com forte apelo ao público jovem porque tem sabores, cores, é tecnológico, cabe na mão."

A estratégia, diz, já foi usada antes pela indústria. "Nos anos 1960, as empresas diziam que o cigarro 'light' era mais saudável. Esse novo também não é inofensivo porque tem nicotina, que causa dependência."

O Juul, surgido em 2015 nos EUA, sacudiu o setor. Entre os adolescentes norte-americanos, o uso do produto aumentou 75% de 2017 para o ano passado, segundo a National Youth Tobacco Survey.

Pressionada, a empresa desativou os perfis nas redes sociais e reeditou o discurso. Passou a dizer que o foco dos produtos é ajudar adultos que querem parar de fumar cigarros convencionais, mesma narrativa de outras grandes do setor, defensoras de que o cigarro eletrônico tem menos riscos para a saúde.

Neste ano, a Juul Labs montou pela primeira vez um estande no Fórum Global sobre Nicotina, que aconteceu na semana passada, em Varsóvia. O evento reúne a indústria, pesquisadores e consumidores.

A presença da Juul Labs causou desconforto nas fabricantes tradicionais, que buscam se descolar da polêmica, como a BAT (British American Tobacco), que controla a Souza Cruz, e produz marcas como Lucky Strike e Dunhill, e a PMI (Philip Morris International), dona da Marlboro.

A primeira tem no mercado três tipos diferentes de cigarro eletrônico: Vype, ePen3 e iSwitch. Vendidos em ao menos 14 países, não são encontrados facilmente no Brasil, nem mesmo na internet. O diretor científico da empresa, Chris Proctor, critica a venda ilegal de Juul. "Nós não faríamos isso. Nunca promoveríamos algum produto que não estamos autorizados a vender."

Ele aposta no lobby pela legalização. "Fui algumas vezes ao Brasil conversar com a Anvisa, apresentar evidências científicas [de que os produtos causam menos danos]", disse.

O cigarro eletrônico está na agenda regulatória da Anvisa, que deve ter em agosto uma audiência pública.

Da Philip Morris, o único vaporizador é o Mesh, vendido no Reino Unido. A aposta da empresa é o IQOS, um cigarro eletrônico de tabaco aquecido, que não o queima.

Moira Gilchrist, vice-presidente de comunicações científicas e públicas da PMI, diz tomar cuidado para que não haja venda ilegal nem atração de jovens e não fumantes.

"Desde o início da comercialização nós temos uma grande responsabilidade em comunicar que nossos produtos são voltados apenas para adultos que desejam parar de fumar", diz Gilchrist.
Representantes da Juul no fórum disseram saber da entrada ilegal do produto no Brasil, mas afirmam não ser o original, já que não têm revendedores na América Latina.

"As contas nas redes sociais não são geridas pela Juul. Algumas são de pessoas comuns, outras são vendedores fingindo que são representantes da empresa", afirma Erik Augustson, diretor de comportamento da fabricante.

Segundo o executivo, a empresa tem um departamento que recebe denúncias de casos do tipo, mas não dá conta de impedir o uso da marca.

A Anvisa também afirma ter uma equipe que monitora os anúncios irregulares. Entre 2017 e 2019, a agência retirou da internet 727 anúncios de cigarros eletrônicos.

Sites dizem que são apenas plataforma para vendedores

Outro lado

Em nota, a B2W Digital, companhia que reúne as marcas Lojas Americanas, Submarino e Shoptime, afirmou que é apenas uma plataforma, na qual vários vendedores entregam produtos diretamente aos clientes, mas que, quando identifica desconformidade, retira os itens do site e descredencia o vendedor.

O Mercado Livre afirmou, também em nota, que os termos de uso da plataforma proíbem a venda de produtos não autorizados pelos órgãos reguladores. A empresa disse manter parceria com a Anvisa para identificar e combater anúncios do tipo.

Procurada, a festa Réveillon Carneiros não respondeu até a publicação.

*A jornalista Thaiza Pauluze viajou a convite da Philip Morris

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