Cavalo mecânico

“No campo e na cidade os acidentes de motos se multiplicam na mesma velocidade e intensidade com que circulam. Além das vítimas fatais, deixam um enorme rastro de incapacitados que lotam clínicas e hospitais”

Quase todo mundo tem um parente próximo que vive distante. E esse afastamento acaba dando margem a algumas histórias, suposições, pequenas intrigas, maledicências e especulações de toda ordem.

Isso durante aqueles saudáveis encontros de jogar conversa fora temperando almoço dominical ou alguma confraternização. Se o tal parente que aparece no giro do foco tem dinheiro, subiu na vida, virou case de algum sucesso, então é que a imaginação corre solta.

A origem humilde sempre é relatada em detalhes até para valorizar a ascensão do parente que era João ninguém e foi amealhando terras, gado, lavouras, investiu no agronegócio, no ramo imobiliário, transportes, etc. E enricou.

Os possíveis detalhes sórdidos dessa escalada é que normalmente dão margem às distantes especulações familiares assim que retiram as crianças da sala. O fato consumado é que o parente lá longe tinha até avião particular, símbolo da plenitude financeira e inveja alheia.

O tempo passa, o tempo voa, até que certo dia, por alguma outra combinação de ordem familiar, você se vê adentrando as terras do tio distante e rico. Pensou que iria encontrar ali uma turma de novos-ricos, broncos feito porteira a prospectar sol e chuva e exibir suas conquistas?

Não é bem assim, os caras são cordiais, informados, informatizados, discretos, sabem que o não ostentar é a alma do negócio. É a nova geração do Jeca-Jóia que se diverte pescando no pantanal ou num forró-pé de serra, mas que monitora as bolsas e sabe em tempo real as cotações do boi e do café via iPhone último tipo na palma da mão.

Da varanda do amplo casarão agora os primos descortinam a propriedade e, por controle remoto, regulam o fluxo da irrigação das lavouras, a temperatura ambiente dos estábulos.

Em vez de cavalos, utilizam motos para percorrer rapidamente as grandes distâncias, vistoriar animais, cercas, poços, essas coisas de propriedades. A troca do cavalo pela moto é justificada pela praticidade econômica conquistada: dispensa ração, remédio, acessório e outros cuidados. Além da rapidez.

Dito isso, meio que a ilustrar vantagens do cavalo mecânico, um dos primos montou sua Harley Davidson, trocentas cilindradas, e partiu por uma estradinha empoeirada, pois estava na hora de vistoriar gado no pasto distante.

Foi e voltou quase num pé de vento, o mesmo tempo que gastaria para preparar e montar um alazão. Encerrada a visita, é o momento dos convites de praxe para retorno “com mais vagar”, e recomendações aos parentes distantes.

Poucos meses depois, todos os familiares, próximos e distantes, são surpreendidos por uma notícia: aquele mesmo parente que tanto exaltara a troca do cavalo pela moto havia saído para mais uma vistoria pelos pastos. A certa altura, entretido na contagem do rebanho ou coisa parecida, perdeu o controle da moto e chocou-se com uma árvore.

Não resistiu ao impacto vindo a falecer, para consternação de todos. E engrossou uma estatística que só aumenta, no campo e na cidade: acidentes de motos se multiplicam na mesma velocidade e intensidade com que circulam. Além das vítimas fatais, deixam enorme rastro de incapacitados que lotam clínicas e hospitais.

Até hoje imagino que se o tal primo distante vivesse ainda no estágio analógico da cavalgadura não teria morrido prematuramente daquela forma. Cavalos são lerdos para esses tempos corridos, costumam trotar, geram alguns incômodos, mas têm instinto de preservação e não se chocam com obstáculos mesmo que o cavaleiro cochile.

Diferentemente, num cavalo mecânico o bem da vida, que é tão rara, tão forte, tão bela e tão frágil, se vai num piscar de olhos. O mundo desenvolvido, por vezes, é cruel e sem desconto de Black Friday.