Camata: sabedoria para governar no presente e pensar no futuro

Em 1983, Gerson Camata assumia o governo do Espírito Santo. Uma carreira política, já vitoriosa, se constituiria, a partir de então, como um marco da história política capixaba, e que se seguiria com três mandatos no Senado da República.

As perspectivas, naquele mês de março, não eram promissoras. O País recuperava-se, lentamente, de uma crise socioeconômica de grandes proporções. O desemprego era enorme, a renda em queda, além de concentrada, a fome e a miséria atingiam amplos setores da sociedade. Ademais, construía-se um lento processo de abertura política.

No Espírito Santo, para complicar a situação, as finanças públicas estavam desorganizadas, com pagamentos de servidores e fornecedores em atraso, dívida bilionária e falta de rumo para o desenvolvimento local, o que era complicado por uma sociedade que transitava de rural para urbana, ocasionado pela implantação/ampliação dos chamados grandes projetos, num contexto de crescimento desorganizado, sem planejamento e, principalmente, sem rumo.

As periferias das cidades da Grande Vitória inchavam de forma desordenada, com uma ocupação de áreas sem saneamento e abastecimento de água, iluminação, segurança pública, serviços de saúde e educação e até mesmo acesso ao transporte coletivo. Uma situação que podemos caracterizar como dramática.

É na compreensão dessa complexa dinâmica que se sobressai a capacidade de Gerson Camata de pensar, formular, de agir e realizar. Conseguiu, ao longo de seu governo, articular as várias exigências que se sobrepunham na sociedade capixaba e brasileira e realizar um governo que entregou aos capixabas melhorias na sua qualidade de vida, bem como um projeto de desenvolvimento para o Espírito Santo.

Esse projeto articulava o nacional ao regional. Ao mesmo tempo em que resolvia pendências com o governo federal – ainda autoritário –, que serviriam para colocar ordem nas finanças capixabas e possibilitar o investimento público, consagrava esforços na campanha das Diretas Já e, depois, na postulação de Tancredo Neves à Presidência da República, demonstrando, na prática, sua liderança política.

Não por acaso, o Espírito Santo foi o local escolhido por Tancredo Neves para, em 15 de novembro de 1984, anunciar a Nova República que viria com a sua eventual vitória.

Mas não só. No âmbito local, realizava um governo que apontava sua preocupação com o desenvolvimento de melhores condições de vida para a população rural capixaba – com a construção de estradas e projetos de eletrificação e telefonia rural – mas, também, com a elevação dos padrões socioeconômicos da crescente população da Grande Vitória e cidades polo regionais, com ações nas áreas de educação e melhorias urbanas, num governo, destaque-se, formado por ampla composição política, indo desde grupos conservadores até a esquerda, passando por liberais.
É por isso, e tantas outras razões, que definimos Gerson Camata como um artífice político de alta qualidade, pois ele pensava e fazia, localizava um problema, questionava a situação e, mesmo as respeitando, mudava as tradições, num contexto de ação democrática, construindo um presente e um futuro melhores.

Rafael Cláudio Simões é professor e doutorando em História


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