Brincando de Deus

 (Foto: Divulgação)
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Ao receber a injeção letal, o cientista australiano David Goodall ouvia a Nona Sinfonia de Beethoven. Em qual acorde ele teria se desligado definitivamente do mundo, após 104 anos, é mais um daqueles insondáveis mistérios. Tipo qual o último acorde da banda que animava o convescote quando o Titanic afundou de vez. Ou ainda: qual o último pensamento do suicida que mergulha para a morte do alto da Terceira Ponte?

Neste caso, ao menos escolheu um deslumbrante cenário para ato tão dramático. Questões mórbidas e trágicas sempre despertaram curiosidades. Nelson Rodrigues daria tudo para ter a dramaticidade do suicida em seu derradeiro bilhete, mas alguns nem se dão a este extremo de legado macabro. É o caso do cientista Goodall, que protagonizou um novo tipo de suicídio: assistido por médicos em luxuosa clínica suíça.

Seria um desdobramento daquelas antigas clínicas em Davos, cenário de “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, onde tuberculosos eram tratados antes da descoberta, em 1928, da penicilina  seminal? Voltando ao suicida chique, sua explicação para o gesto é que perdera a qualidade de vida e já não valia ficar por aqui dependente dos outros.

Algum temor final? Nem isso, pois ele não acreditava em nenhum tipo de vida após a morte. Em tese, todo suicida pensa mais ou menos assim. E resolve brincar nos campos do senhor. Afinal, não é somente Ele quem tem esse poder de arbitrar vidas, início, meio e, principalmente, fim? Ou como encarar o peso que as religiões impõem aos que tiram a própria vida, que é a condenação eterna? Então, quando a pessoa resolve antecipar o próprio fim, deduz-se que perdeu esperança até da eternidade.

Quantos suicidas se jogaram da Terceira Ponte, e até hoje não se tirou do papel o projeto das telas de proteção? Dedução lógica imediata: com as telas, suicidas vão buscar outro lugar. Outra questão: imprensa não noticia suicídios, sob argumento de que é um incentivo para outros cometerem o mesmo ato. Daí, ninguém fica sabendo como muitos partiram. Ou só se dá conta do ritual trágico quando o sujeito escala a mureta e ameaça se jogar, e interrompe o trânsito. Então, a crueldade humana fica explícita nos gritos de motoristas contrariados pedindo para a pessoa se jogar mesmo.

Professores municipais se assustam com o número de estudantes que se mutilam e aqueles que fazem apologia do suicídio. Nas redes, circulou um vídeo de uma menina de uns 12 anos ensinando, passo a passo, como fazer para se enforcar. Desesperança, pais ausentes, exclusão social, falta de diálogo e informação, drogas, bullying, tudo junto e misturado. A propósito, estudo recente realizado pela revista Nature, nos Estados Unidos, apontou que há um aumento de suicídios em função da mudança climática e da elevação das temperaturas. A levar em conta essa pesquisa, quanto mais quente, mais pessoas vão querer escalar a mureta da Terceira Ponte.

Agora, há o risco de suicídio assistido por milhões de brasileiros: a ascensão de Bolsonaro na corrida presidencial. Retrógrado, incensador de torturadores e sem base política consistente, é o que não falta ao País. Igual ao convescote trágico do Titanic e do ato de Godall, mal vai dar tempo de pedir a derradeira música. Com Bolsonaro presidente, a saída parece ser o aeroporto – quem pode vai para Miami, Portugal ou escala uma clínica na Suíça, não necessariamente para fazer como Goodall, mas esperar o vendaval passar. Aos que ficam, cumprir o que parece sina dos tempos modernos: resistir bravamente aos extremos ou radicalizar de vez.

Cientistas políticos opinam que quando a campanha começar de fato Bolsonaro despenca, não tem argumentos nem motriz partidária para chegar à presidência da República. A conferir. Mas há outra notícia ruim nesta seara: a renovação do Congresso poderá ser mínima, muitos ali vendendo a alma para assegurar novo mandato e se blindar da Lava Jato. Se bem que uma banda do STF já anda se encarregando disso... E as bancadas corporativas dominadas pelo agronegócio, empresariado e religiosos retrógados? Agora mesmo se discute no Congresso a flexibilização de uso dos agrotóxicos, quase um suicídio comunitário em longo prazo.

O primeiro e grande desafio desta fase pré-eleitoral é evitar a depressão. Depois, impedir a crônica do suicídio assistido de um projeto de nação democrática. Lembrete: Trump era só uma piada de salão nos EUA. Deu no que deu. Ultimamente, a propósito, Trump anda tão se achando que já fala em conceder perdão a ele próprio, coisa assim
de quem brinca de Deus.