Baseado em fatos reais, mas não muito

“A lembrança é essencialmente fragmentária, a memória espontaneamente reciclada, a história é naturalmente transformada antes de se perder para sempre”, Wouter van der Veen

Em meio à crescente invasão de fake news amplificada pela rede social, banaliza-se a expressão: “Baseado em fatos reais”, seja no cinema, na literatura, televisão, web etc. Faz parte da busca por credibilidade num mercado arisco e ávido por novidade, a maioria logo descartável. “A melhor banda dos últimos tempos, da última semana” – um recente achado fonográfico utilizado por uma banda brasileira de rock – resume bem o espírito da coisa.

Especialista na obra de Van Gogh, e autor do intrigante livro “O capital de Van Gogh”, Wouter van der Veen desconstrói a versão comum de que o pintor holandês teria sido um artista “pobre, marginal e maldito”, que é mundialmente aceita e veiculada há mais de século. Ao contrário, segundo Wouter, Vicente e seu irmão Theo eram empreendedores hábeis, dotados de muita percepção e senso de oportunidade. E que o pintor nunca foi um miserável esfomeado, imagem vendida em inúmeros livros, filmes, matérias de TV e Caderno B.

Bom, vale olhar o final dessa empreitada e constatar que atualmente qualquer um dos 800 quadros que ele pintou vale fortuna. “Teria sido Van Gogh um pintor incompreendido ou um gênio do mercado financeiro?”, perscruta Wouter, como quem aponta o patrimônio bilionário gerado pela famosa grife Van Gogh. Se você for ao museu do pintor, em Amsterdã, em qualquer dia do ano, encontrará filas gigantes na porta. Numa manhã de inverno, anos atrás, fiquei quase uma hora debaixo de flocos de neve e um frio de cortar ossos antes de acessar a galeria e, aí sim, me deixar extasiar pela obra ali exposta. Isso com direito ao disputado e vasto arsenal de produtos (pôsteres, cópias de quadros, camisetas, chaveiros, canetas etc.) disponibilizados para consumo.

Lembro ainda da sensação surpreendente experimentada em outra manhã, no Museu d`Orsay, Paris, diante dos quadros de Van Gogh. Aquilo parecia ter movimento, vida, não era nem nunca foi uma natureza morta. Especialistas apontam que um dos segredos do pintor era não diluir as tintas, o que ressalta e preserva a cor, e cria textura própria. Em outra ocasião, no Masp, vi um pequeno auto-retrato de Van Gogh, e me peguei imaginando que um quadro simples como aquele, se dono fosse, me tornaria milionário. No entanto, seu autor, suicida, morreu pobre, angustiado, solitário etc., e toda essa história já bastante veiculada.

Mas esta pode ser apenas uma versão midiática para vender o contraste cruel: um gênio incompreendido, morto sem glória e reconhecido na posteridade. Wouter diz que o pintor levou uma vida confortável; e que os irmãos Van Gogh tinham uma visão quase profética da evolução do mercado de arte, e que juntos prepararam um êxito excepcional. E mais, Vicente tinha perfeita noção da originalidade e inovação do seu trabalho. Colocar Van Gogh assim como um premeditado, frio e disciplinado pintor em busca de fortuna certamente tira o glamour gauche da sua história. Sim, “malditos vendem”, porém esta é mais uma verdade relativa. Quantos pintores talentosos andam por aí em busca de um lugar sob holofotes das galerias? Quantos já se foram e deixaram suas obras se perdendo anônimas por entre traças pelos porões da vida?

Wouter dá outra cutucada na questão da memória que transita entre o real, o imaginário, e a busca pela verdade. “Existe um limite, exasperante à primeira vista, mas tranquilizante quando aceito: saber que não sabemos tudo, que nunca saberemos tudo, e que nem por isso a Terra deixa de girar”. A propósito, encontra-se em cartaz o filme “Vice”, que tem oito indicações para o Oscar, apresentado como mais uma história “baseada em fatos reais”. Mostra a ascensão política de Dick Cheney, um lacaio do serviço público norte-americano. Carreirista, ardiloso, auxiliado pela esposa de gênio forte e ambiciosa, o cara vai longe.

De obscuro assessor formado nos corredores da Casa Branca tornou-se vice-presidente dos EUA com alto poder durante o governo George W. Bush, um presidente fraco. O jogo entre o vice e o presidente é a parte empolgante da trama exposta. O filme “baseado em fatos reais” revela um enredo que a todo instante coloca em dúvida o que é realidade de fato. Dick Cheney manipulava informações e pessoas, escondia o que não queria, inventava, induzia. Pensou que foi a turma do Trump que inventou fake news? Pois o “Vice” acabou por botar a Casa Branca ardendo no fogo da guerra do Iraque, um conflito repleto de mentiras, interesses escusos e crueldades.

Enfim, tanto na vida quanto na arte, nossa memória costuma atravessar penhascos correndo risco de cair no vazio. Peça a alguém conhecido para narrar um episódio marcante em que vocês foram protagonistas, e compare a versão dele com aquilo que está registrado em sua memória: muita coisa não vai bater. Posto de outra forma: o que irão escrever sobre a tragédia de Brumadinho, lá pelo ano 2046? Certamente vai depender da memória histórica e, principalmente, a serviço de quem essa memória estiver. O que é real hoje, amanhã pode não ser mais. Assim como as barragens, o mundo das certezas absolutas foi rompido há tempo.