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Balada de outono
Luiz Trevisan

Balada de outono

“E até a Lua, nosso satélite, perdeu 50 metros de diâmetro, nos últimos milhões de anos, segundo a Nasa. E ainda enfrenta terremotos. Ou seja, mesmo a decantada placidez lunar está indo para o espaço”

O corte de verba na educação, que o governo classifica de “contingenciamento”, só aguça o sentimento de perda vindo com o outono. Vai de Bete Carvalho a Doris Day, do Antunes Filho a Lúcio Mauro. Entre cortes e perdas, do calor das ruas trazido pelas manifestações ao frio dos dias – e agora com muita, muita chuva –, só não vale perder a ternura e o humor. A propósito, a melhor tirada sobre Doris Day, conhecida como “a virgem saudável da América”, talvez tenha sido do comediante Groucho Marx, aquele mesmo que disse não recomendar um clube que o mantivesse como sócio.

Ao falar sobre a atriz e cantora, falecida aos 97 anos, – protagonista de filmes clássicos, como “Confidências à Meia-Noite”, e intérprete de sucessos tipo “Pillow talk” – Groucho Marx cunhou uma de suas pérolas: “Quando eu conheci a Doris Day, ela ainda não era virgem”. E a mídia nacional caprichou também, ao anunciar a morte do humorista brasileiro, de papeis marcantes na televisão, uma charge mostrou Lúcio Mauro ligando do céu para o filho homônimo: “Lucinho, peguei a Doris Day”.

Por aqui, perdemos também a tradicional Galeria Ana Terra, que vai migrar do físico para o digital. Ao anunciar o fechamento da loja de arte, aberta em Vitória na década de 80, a marchand Ana Coeli lamentou não poder “encasular o tempo”. Foi obrigada a se render ao mundo atual: manter um empreendimento virtual implica em menor desgaste e despesa com loja, pessoal, trânsito etc.

Já a tradicional livraria Saraiva anda encolhendo. Fechou a loja situada no shopping Praia da Costa,em Vila Velha, e passa por um processo de enxugamento em outras unidades após pedir recuperação judicial. E até a Lua, nosso satélite, perdeu 50 metros de diâmetro, nos últimos milhões de anos, segundo a Nasa. E ainda enfrenta muitos terremotos. Ou seja, mesmo a decantada placidez lunar está indo para o espaço.

E há também a perda de cidadãos brasileiros rumo a Portugal. Ultimamente, virou sonho de consumo de muitos fazer aquela viagem invertida do Cabral, até por causa do Cabral brasileiro que o País descobriu, envergonhado, mais recentemente. Contudo, mesmo esse desejo sofre cortes: no ano passado, dobrou o número de brasileiros que tiveram acesso negado a Portugal por problemas na documentação, em sua maioria. Aquela história do jeitinho brasileiro lá fora nem sempre rola.

E coube à atriz Regina Casé o brado de resistência proclamando, não às margens do riacho Ipiranga, mas no palco de um teatro carioca: “Eu não vou para Portugal!”, no que foi aplaudidíssima. Sinal de que nem todo mundo concorda que a melhor saída para a nossa crise é o aeroporto. A lua encolhe e treme, Antunes Filho deixou um vazio na coxia, Bete Carvalho não vai mais ser madrinha de ninguém.

Porém, particularmente ela nos legou, entre tantos belos sambas e trajetória admirável, o inesquecível hino dos andarilhos descolados: “Tem tanta areia, andei, da lua cheia, eu sei, uma saudade imensa”. E quem, com mais de trinta anos, que nunca tentou cantar, fazer corinho ou tocar “Andança” num violão, de preferência ao redor de uma fogueira, que atire a primeira brasa.


 


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