Álcool não aduba felicidade

Após atravessar o aparelho digestivo e cair na corrente sanguínea, o álcool atinge o cérebro. Ao transformar o córtex cerebral em salão de festa, ele deixa o bebedor desinibido e falante. Sentindo-se bem e confiante, a pessoa acaba bebendo outras doses.

Protagonista de gostosa diversão, prazer e entusiasmo, o álcool resolve percorrer um novo caminho, indo para o hipocampo. Neste local, ele entorpece a memória.

Quem já ficou bêbado costuma não se recordar dos fatos, das pessoas com quem falou, e nem mesmo como foi levado para casa. Emoções exacerbadas também surgem nesse local do cérebro, gerando discursos de amor, gargalhadas e choros emocionados, caracterizando labilidade emocional.

Passado algum tempo, a bebida se desloca para o cerebelo, lugar onde ela provoca alterações. Privado de equilíbrio, o cerebelo faz o mundo girar ao redor do indivíduo. Ver tudo rodando é o caminho mais curto para vomitar.

Existem vários tipos de bêbados, cada um deles reagindo ao álcool de maneira diferente. Alguns bebedores entornam grandes volumes de etanol e não ficam bêbados. Esses consumidores não revelam mudanças notáveis de personalidade quando passam da sobriedade à embriaguez.

Outros se tornam agradáveis quando estão bêbados, mostrando comportamento extrovertido e amigável.

Álcool pode produzir redução do estado de consciência e afabilidade, estimulando atitudes antissociais. Os membros desse grupo podem apresentar condutas irresponsáveis, estúpidas e hostis, quando estão embriagados.
Consumidores de álcool desenvolvem habilidade para justificar suas preferências etílicas.

Não existe comemoração sem cerveja, afirmam os apreciadores dessa espumosa bebida.

O vinho não era tão popular quanto a cerveja, até alguém dizer que “um cálice, por dia, é bom para o coração”. A maioria dos bebedores ignorou a dose e correu para a adega mais próxima, quadruplicando sua dose diária.
A vodca e o uísque são bebidas enaltecidas pela elite, afirmando que seu uso exige requinte. Algo tão nobre não deve fazer mal, afirmam seus usuários.

A cachaça, bebida popular, goza de prestígio entre os bebedores humildes. Muitos afirmam que ela deve ser ingerida em doses pequenas, ou seja, várias doses pequenas.

“Você já viu uma lata de cerveja dizendo que vai te ligar no outro dia, e não liga?” “Ou então um cálice de vinho dizendo que é jovem demais para se envolver?” “Ou um copo de uísque pedindo um tempo para decidir se realmente é aquilo que quer?” “Ou ainda uma taça de conhaque dizendo que você é a pessoa certa, mas na hora errada?” “Por acaso uma garrafa de cachaça já beijou alguém na tua frente"? “Ou então você já levou chifre de um litro de rum?”

Jorram desabafos vindos do coração de quem necessita do álcool para chorar suas mágoas.
Aos que cansaram de ficar com os pés inchados por causa de memoráveis carraspanas e que já não aguentam mais a decadência profissional e o desrespeito por parte de familiares e amigos, em virtude dessa prejudicial prática, lanço um raio de compreensão sobre a calvária obnubilada de todo pinguço.

Alcoolismo provoca cirrose, hepatite, AVC (que não tem nada a ver com Associação dos Viciados em Cachaça), câncer (que não tem nada a ver com sagitário, capricórnio e escorpião), conversão religiosa (que pode drenar para o fanatismo, vício tão nocivo quanto o álcool) e morte, talvez o recurso comprovadamente eficaz para recuperar alcoólatras desenganados.

Quando indagados se o álcool faz mal, alguns bebedores respondem: “só quando acaba... ele ou nós”.


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