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A onda do naturismo cristão
Tribuna Livre

A onda do naturismo cristão

Edebrande Cavalieri (Foto: Tribuna Livre)
Edebrande Cavalieri (Foto: Tribuna Livre)
Está chegando ao Brasil mais uma onda norte-americana do campo religioso. Criada em 1984, na cidade de Ivor, Pensilvânia, a Igreja White Tail se destaca por ser uma comunidade nudista.

O argumento do pastor Allen Parker é de que “Jesus estava nu em momentos fundamentais de sua vida. Quando ele nasceu estava nu, quando foi crucificado estava nu e ao ressuscitar, ele deixou suas roupas sobre o túmulo e estava nu. Se Deus nos fez deste jeito, como pode ser errado?”

É no meio evangélico pentecostal que tem se desenvolvido mais esta nova onda religiosa. No ano passado, mais de 10 mil pessoas visitaram a igreja e os lucros subiram 12%. E o negócio nudista prospera não apenas nos EUA, mas também na Austrália e agora no Brasil.

Encontram na prática do nudismo uma postura libertadora, pois, sem vestes, nenhuma pessoa poderá ser identificada em sua situação socioeconômica, alegam seus fiéis. O pastor Parker diz que todos os frequentadores são seres humanos, sem aparência glamourosa, “todas as pessoas são iguais”. Soa como muito ingênua a crença de que a nudez nos torna iguais.

Um dos fiéis argumenta que não gosta de roupas, mas isso não significa que ele não tenha Deus no coração. “Imoral é o que se faz de sujo com o corpo”. E assim cresce uma forma pouco formal de louvor, incendiando as redes sociais de discussões, nem sempre respeitosas.

Pessoas que frequentam esta Igreja tem mostrado que buscam ambiente livre do julgamento pessoal, uma comunidade onde possam se ajudar mutuamente, um grupo de pessoas comprometidas. Ou seja, na Igreja que frequentavam antes não acharam estes valores. Muitas outras pessoas, ao saberem desta nova Igreja, dizem que esperam que “esses evangélicos nudistas” não sejam homofóbicos e nem racistas. Pessoas que se afastaram de comunidades religiosas alegam que muita gente que frequenta Igreja se acha no direito de julgar e controlar todas as pessoas ao seu redor, são especialistas em cuidar de cada detalhe da vida dos outros.

Este quadro nos traz algumas questões. Antes de condenar esta nova onda, é preciso se perguntar por aquilo que ela traz embutido e se propõe como Igreja. A questão econômica está marcada deste sua criação. Consideram que a força da fé está diretamente relacionada com a prosperidade econômica. Outro dado a ser considerado é a continuidade da leitura fundamentalista da Bíblica, sem considerar os diversos contextos em que a questão da nudez aparece. O fundamentalista leva as pessoas para onde quiser, apoiando-se na Palavra. No Brasil, a perspectiva fundamentalista está ocupando espaços centrais do poder político e isso é algo preocupante para um Estado Democrático de Direito.

Por fim, esta nova onda expressa uma busca maior de vivência espiritual. É perceptível que o que está sendo disponibilizado para as pessoas nas diversas instituições religiosas não atende às necessidades espirituais. O terreno onde nasceu e se fortaleceu o movimento da Reforma Protestante não desapareceu. O advento do pentecostalismo recente está mostrando isso. O problema central não eram as indulgências.

Esta onda não nasce apenas porque um “aventureiro” resolve criar uma Igreja. Ela só prospera por encontrar terreno fértil para crescer. Antes de se posicionar a favor ou contra, é preciso fazer um profundo estudo do fenômeno religioso em suas diversas manifestações, coisa que a modernidade positivista sempre rechaçou nos meios acadêmicos. Assim, temos um campo fortíssimo da cultura com pouca pesquisa acumulada. Os juízos proferidos são meras tomadas de posição a favor ou contra, mas sem argumentos apoiados em fatos.

Edebrande Cavalieri é doutor em Ciências da Religião


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