A importância do olho no olho para a saúde

De alguns meses para cá, está em discussão no Brasil a regulamentação do uso da telemedicina, uma ferramenta que, em poucas palavras, permite ao médico realizar o atendimento on-line, através do computador ou até mesmo da tela do celular e de onde estiver.

À primeira vista, a novidade parece revolucionária e agrada a algumas pessoas, que defendem a velocidade do diagnóstico como ponto primordial ao falar sobre o assunto.

Por outro lado, quando paramos para refletir e avaliamos o dia a dia dos médicos e pacientes como um todo, acabamos levantando alguns questionamentos a respeito da telemedicina. Após alguns anos exercendo a profissão, defendo que, quando o assunto é cuidar da saúde, não acredito que a velocidade seja um fator determinante – salvo, é claro, nos casos de urgência e emergência, quando nossa prioridade é salvar a vida do paciente no menor tempo possível, nos esforçando para que ele saia de ocorrências como infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC), por exemplo, sem sequelas.

Mas nas consultas de dia a dia, onde avaliamos a saúde do paciente de uma forma geral, defendo que ainda precisamos de tempo, de olho no olho, de conversa, de cuidado pessoal. O mundo mudou muito nos últimos anos e nossa rotina também, deixando tudo cada vez mais acelerado. Mas certas coisas não precisam entrar nessa velocidade constante e, pelo contrário, necessitam de horas de atenção dedicadas. E uma delas é a saúde, que deve vir sempre em primeiro lugar nas nossas vidas.

A maioria dos sinais que o nosso corpo dá quando temos algum problema de saúde só podem ser enxergados de perto, quando avaliados pelo profissional. Além disso, é na conversa do consultório que descobrimos a rotina do paciente e podemos pontuar onde exatamente ele precisa melhorar para se prevenir de problemas de saúde.

Recentemente, após regulamentar o uso da telemedicina no país e ser alvo de críticas, o Conselho Federal de Medicina (CFM) voltou atrás e tornou sem efeito a medida anterior, que definia os parâmetros para a atividade – entre eles as regras para o atendimento médico usando tecnologia, troca de informações de diagnóstico e telecirurgias.

Segundo o próprio comunicado da entidade, a decisão de voltar atrás aconteceu após protestos de alguns médicos e agora estão valendo as regras estabelecidas em 2002 sobre o tema, que definem que a telemedicina pode ser usada apenas para assistência, educação e pesquisa e não mais para a prevenção de doenças, lesões e promoções de saúde.

Nos últimos anos, a tecnologia no mundo evoluiu de forma extraordinária e acredito que ela tem muito a acrescentar no nosso dia a dia, sendo, inclusive, um meio para facilitar o nosso trabalho. Menciono aqui inovações como o coração artificial, que tem salvado muitas vidas que antes aguardavam anos nas filas dos transplantes e, muitas vezes, não conseguiam esperar.

Ainda assim, acredito que valha a discussão e reflexão sobre até que ponto a tecnologia deve ser incluída na rotina de médicos e pacientes, principalmente no que diz respeito a consultas, exames e check-ups frequentes. Ao longo dos meus 54 anos de exercício da medicina, aprendi a valorizar o contato direto com o paciente e a saúde olho no olho. E isso a tecnologia ainda não é capaz de substituir.

Schariff Moysés é cardiologista e cirurgião cardiovascular


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