A humanidade como virtude

Não nascemos humanos, transformamo-nos em humanos – ou não! Pode parecer estranho, mas é exatamente a contingência histórica que promove seres nascidos potencialmente humanos a humanos de verdade. Temos até palavra – desumano – para definir aquele que, por qualquer razão, está submerso na barbaridade, não tendo, ainda, vindo às Luzes.

Neste 10 de dezembro, comemoram-se os 70 anos de uma das maiores conquistas da civilização, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A própria formulação da Declaração pela ONU, evidenciando a necessidade de um guia ético rumo à constituição do humano em nós, é também sinal de que a direção da humanidade não é um caminho natural da nossa espécie.

Freud descreveu as dificuldades colocadas à conquista e manutenção da civilização (“soma das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais, e que servem a dois intuitos: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar seus relacionamentos mútuos”).

Como lembrou, padecemos da “inclinação para a agressão” e, “em consequência dessa mútua hostilidade primária dos indivíduos, a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração”.

Dessa sorte é que podemos localizar a humanidade, ou a experiência de existir humanamente, como virtude – uma decisão autônoma, uma vontade moralmente boa e uma disposição ao bem, habilitando-nos a viver com dignidade. Como escreveu Pico Della Mirandola, Deus, ao lembrar Adão de seu livre arbítrio, diz: “poderás degenerar até aos seres que são as bestas, poderás regenerar até às realidades superiores que são divinas, por decisão do teu ânimo”.

Ocorre que essa escolha ultrapassa os limites da decisão pessoal, ainda que esta esteja na origem de toda a nossa trajetória.

Humanos não nascem do nada, constituem-se mergulhados no líquido amniótico dos direitos humanos e dos preceitos de humanidade, em sociedades que tomam a decisão de se edificarem civilizadamente.

E não há uma sociedade humanística dividida em guetos. Falar de “direitos humanos apenas para humanos direitos” é apostar no perigoso juízo discricionário num campo que não admite as sombras da subjetividade. É inviabilizar uma sociedade verdadeiramente civilizada, posto que tolhe daqueles que já foram excluídos das condições mais básicas de humanidade qualquer chance de reescreverem sua história, seja como sujeitos, seja como comunidades.

É duro viver num ambiente de hostilidade e medo, mas responder violência com violência, morte com morte, segregação com segregação só nos iguala a todos na escuridão da barbárie. É preciso, sempre, enxergar o farol civilizatório que nos pode guiar para uma vida digna dos seres inteligentes que somos, dotados das capacidades de pensar, querer e julgar, sabendo que a existência é feita de escolhas e que elas têm consequências.

Conforme o Artigo I da Declaração Universal dos Direitos Humanos, “todos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”. A partir daí, são as escolhas que escreverão a história, firmando páginas que honram, ou não, nossa condição de criaturas pensantes, que podem se igualar a feras, mas que também podem optar por serem humanas – e somar para a Humanidade.

José Antonio Martinuzzo é doutor em Comunicação, pós-doutor em Mídia e Cotidiano, professor na Ufes e membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória


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