Cookies não suportados!

Você está utilizando um navegador muito antigo ou suas configurações não permitem cookies de terceiros.


Assine agora e tenha acesso ao conteúdo exclusivo do Tribuna Online!

esqueceu a senha? Assinar agora
Cookies não suportados!

Você está utilizando um navegador muito antigo ou suas configurações não permitem cookies de terceiros.

A galinha anacrônica
Blog Luiz Trevisan

A galinha anacrônica

Plastificada, pousa sobre a mesa, uma galinha anacrônica, verde pintadinha. Talvez pela cor, dá impressão de cacarejar mais alto na Semana do Meio Ambiente. Ela surgiu como um desses mimos trocados em festa familiar de amigo X e que, por delicadeza, você expõe por um tempo até que venha o descarte, sina de toda galinha cumprindo seu destino. Ali adornando a mesa de refeição, não deixa de ser mimosa em seu feitio, a papada impressiona sobremaneira, mas tem encravada nas costas um saleiro e um paliteiro condenados pela nova etiqueta social.

O primeiro, sob artilharia dos médicos, já foi excluído até das mesas dos restaurantes acusado de inimigo número 1 da pressão arterial. Já o paliteiro, de há muito superado pelo fio-dental, jamais deve ser utilizado à mesa após a refeição. Nem em pensamento. No máximo, “dentro do banheiro e de portas fechadas”, ensina a cronista Danuza Leão. Além de tudo, como é feita de plástico, essa galinha vai logo para o inferno dos ambientalistas, que já crucificaram o canudinho, azucrinam as sacolas e agora investem de tridentes contra as embalagens de creme dental.

Dizem que a galinha é a primeira e maior marqueteira do reino animal. Isso já deu case a rodo em aulas de marketing, do analógico ao digital. Diferente das outras penosas aparentadas, tão logo põe ovo começa a fazer propaganda dele. Ou será que a timidez da pata, por exemplo, é porque não põe fé no próprio produto? Há uma série de outras virtudes da galinha, que vão além do ensopado com batatas ou quiabo e omeletes derivados. Por exemplo: para limpar terreiro e terreno, é tiro e queda. Ponha ali um bando de galinhas que ambientalmente é melhor do que qualquer agrotóxico. Caçadora voraz de escorpião e outros peçonhentos, revela-se implacável com as asquerosas baratas. Lembro de um samba antigo onde a frase que ficou na memória é justamente esta: “Barata viva não atravessa galinheiro”. Não mesmo.

E tem o lado filosófico da galinha. Não somente sobre a dúvida atroz de quem veio primeiro, ela ou o ovo. Todo mundo conhece alguma historinha onde a criança afeita a uma galinha passou anos no divã por causa do trauma provocado pela mãe ou avó: faca afiada na mão, degolando e depenando sem dó a querida companheira das incontáveis brincadeiras de quintal. Bom, e tem o outro lado cruel que persegue a galinha. Seu vôo curto e errante costuma ser evocado pelo ministro da Economia para explicar que pretende alçar o desenvolvimento em outro patamar. Melhor que não seja o de um monomotor mal-ajambrado de aeroclube ou jato da Avianca.

E ainda tem o marido da galinha, que, a exemplo de tantos outros, costuma dar alteração na ordem. Recentemente, na Lapa carioca, um galo batizado de Ricardo causou polêmica nas redes sociais por acordar a vizinhança com sua cantoria às 5h da matina. No tempo de Noel, Wilson Batista e Ismael, isso dava samba. Esse galo também carrega um histórico de exclusão social: antes de ser comprado pelo atual dono, pertencia a um morador de rua, que lhe dava cerveja. Talvez o passado boêmio e súbita abstinência tenham alguma coisa a ver com a cantoria do Ricardo desvirginando a madrugada. De resto, e com esse nome, basta ser elevado ao aumentativo para tocar terror nos demais galos da vizinhança, principalmente daqueles que dormem muito. Por outro lado, quem tem galinha como companhia não deve exigir cartão de fidelidade.

O galo também belisca a filosofia existencial desde os tempos bíblicos, a partir daquela tripla negação do apóstolo Pedro a Cristo, e segue aurora afora: a gente sabe que não é por causa do seu canto que o dia amanhece, mas, quando ele anuncia a madrugada, entra no ar um despertador natural, infalível e altamente reciclável. Ainda que, ao final da sua existência, seja duro de cozinhar, segundo aquela analogia sobre os tarefeiros indolentes. Galos dignos deveriam ser poupados deste final cruel, lento e melancólico.

Nesta Semana do Meio Ambiente, pensei em rebobinar o clichê de que não há muito que comemorar, mas optei por esse voo curto de galinha em cenário que por vezes parece pardieiro – rios poluídos, desmatamento, pó preto no ar, dengue voando baixo etc. Assim como o boi, da galinha, tudo se aproveita. Porém, diferentemente, não eleva tanto os gases poluentes na atmosfera. Nem assim até hoje foi alçada a um patamar de reconhecimento ambiental compatível, mesmo sendo sustentável e nutritiva. Além de receita infalível para enfermos, pois caldo de galinha, associado à oração, todos sabem o poder.

E ainda nem mencionamos os descendentes dessas aves galiformes e fasianídeas, os verdadeiros reis e rainhas do agronegócio. Ambientados em granjas, os frangos comem e engordam o tempo todo estimulados por rações, anabolizantes e luz artificial. Não é uma dieta lá muito saudável, mas, como o destino é a panela, só os veganos salvam. Ah, já ia esquecendo a contribuição da galinha para o cancioneiro popular, desde aquela sacada do poeta Paulo Vanzolini concluindo uma infrutífera ronda noturna pela cidade com o desabafo memorial: “Volto pra casa abatida...”

Conteúdo exclusivo para assinantes!

Assine agora e tenha acesso ao conteúdo exclusivo do Tribuna Online!

Matérias exclusivas, infográficos, colunas especiais e muito mais, produzido especialmente pra quem é assinante.

Apenas R$ 9,90/mês
Assinar agora

Olá, !

Esse é o seu primeiro acesso por aqui, então recomendamos que você altere o seu nome de usuário e senha, para sua maior segurança.



Manter dados