Luiz Fernando Brumana

Luiz Fernando Brumana

"A esposa": o filme que pode levar o Oscar de melhor atriz

 (Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Logo no início do seu livro "Romancista por Vocação", o escrito japonês Haruki Murakami pontua: "não podemos considerar os romancistas - pelo menos não todos - sempre íntegros e imparciais. A meu ver, muitos possuem algumas particularidades não muito louváveis". Esta passagem me veio várias vezes à mente durante a exibição do filme "A Esposa", o qual tem feito Glenn Close colecionar prêmios e ser cotada para o Oscar de melhor atriz este ano. Ao fim, me peguei refletindo: faz sentido todo alvoroço? Em torno da atriz, sim.

Aclamada pela versatilidade de papéis — indo dos infantis, como 101 Dalmatas (1996), aos dramas, como Atração Fatal (1987), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar — Glenn se destaca do início ao final do longa.

 (Foto: Glenn Close/ Divulgação)
(Foto: Glenn Close/ Divulgação)
Há quem possa alegar que esta é a função de uma protagonista. Porém, neste filme, sua personagem está quase que subordinada ao marido, estando sempre a sua sombra e sendo "apenas" a esposa do grande escritor que acaba de ser anunciado como o ganhador do Nobel de Literatura. Está aí o grande desafio: brilhar enquanto os holofotes não estão sobre si. Não há cenas épicas ou clímax elaborado para potencializar as interpretações. O acerto da atriz está na sutileza de entender a personagem e dosar as emoções na exata proporção que nos leva a acreditar nela e em seus conflitos.

Por se tratar de um filme sobre o mundo literário, há uma evidente preocupação com o roteiro, o qual está repleto de pistas quase invisíveis que ajudam a montar o perfil de Joan Castleman; seu marido, Joe Castleman (Jonathan Pryce); e seus filhos. É quase como uma história literária que se desenrola na tela. Há muitos flashbacks que ajudam a situar o expectador e auxiliam a contar a vida daquele casal, vezes imerso em belos momentos e outras em crises profundas. A primeira cena do longa-metragem já traz à baila o sexo na terceira idade, tema pouco explorado na telona. Há ainda, em meio a tudo isso, uma crítica ao machismo e ao papel socialmente reservado à mulher.
 (Foto: Glenn Close e Jonathan Pryce/Divulgação)
(Foto: Glenn Close e Jonathan Pryce/Divulgação)
O longa-metragem dirigido por Björn Runge, porém, comete alguns pecados, a exemplo de não desdobrar a história de coadjuvantes importantes, como o filho do casal David Castleman (Max Irons) ou mesmo de outros personagens que passam quase como figurantes. Talvez este efeito seja até proposital, afinal o casal protagonista está fora do seu país para uma premiação, o que acaba deixando qualquer pessoa um pouco mais solitária e desconfortável. Pensando bem, talvez não tenha sido intenção do roteirista, mas sim o que Glenn conseguiu transmitir com toda sua sutileza.
P.S.: Cuidado com algumas sinopses. Elas trazem todo o segredo da história.