A dor que não pertence ao corpo

“A dor do outro é sempre menor que a nossa”. Nem sempre isso é verdade. Existe dor que não mais nos pertence, mas ainda nos aflige. Ela costuma residir num membro fantasma.
Quando removido ou amputado, esse membro deixa uma percepção vívida de sua presença. Essa ilusão machuca de verdade.

“É uma coisa maravilhosa e estranha. Eu, dificilmente, acreditaria se não tivesse visto com meus próprios olhos e ouvido dos pacientes que, muitos meses depois de ter suas pernas cortadas, ainda sentiam uma grande dor no membro amputado”, escreveu o francês Ambroise Paré, no século XI.

Cirurgião do exército, ele costumava extirpar braços e pernas feridos no campo de batalha. Aquilo que muitos soldados começaram a relatar causou perplexidade.

Outros médicos também escutariam as mesmas queixas sobre um membro fantasma que aparecia no lugar do arrancado. Não era delírio e nem alucinação.

A parte do corpo podia não estar mais lá, mas as dores eram incrivelmente reais. Esse fenômeno ainda hoje intriga a comunidade médica. Por muito tempo, pensou-se que as causas eram psicológicas, acreditando-se que, quanto maior a rejeição à cirurgia, maior era a dor sentida. Recentemente, descobriu-se que o problema é fisiológico.

Com um conhecimento maior do cérebro e, graças a tecnologias de imagem avançadas, que permitem visualizar a atividade dos neurônios dos pacientes, cientistas começam a desvendar os mecanismos por trás da dor fantasma.

Diante da perda de um órgão, o cérebro tenta se reorganizar, mas essa reestruturação costuma não dar certo. A região que representa o membro amputado começa a responder a estímulos de áreas próximas. Essa confusão no cérebro resultaria na dor em um membro que não mais existe.

As pessoas nascem com um mapa de seu corpo impresso no cérebro. Depois da amputação, a representação da parte dele ainda existe, como um tipo de memória sensorial. Mas o mapa se torna distorcido. Essa reorganização está relacionada à dor.

Amputados relatam algum tipo de dor fantasma, mas nem sempre a sensação é apenas dolorosa. Alguns dizem, por exemplo, que conseguem visualizar o membro amputado, mexer com ele e ter a impressão de poder tocá-lo.

Este fenômeno acontece pela ausência de impulsos nervosos no membro afetado.
Mudanças que ocorrem no córtex cerebral respondem pela sensação no local onde estaria o membro amputado.

Quando um nervo é seccionado, ele produz uma descarga em todos os tipos de fibras. Posteriormente, a excitação diminui e o nervo cortado torna-se silencioso, até que novas terminações nervosas comecem a crescer. Isto implica que o sistema nervoso tenta dar conta da falta de influxo normal.

O nervo, de forma desregulada, traz a informação de dor daquele membro que não existe mais para a medula, local onde permanece gravada. Pacientes que sofrem desta síndrome acreditam que o membro amputado encontra-se presente e funcionando, como de costume. Além da dor neuropática, outras sensações, como frio, calor e espasmos, são relatadas.

Em algumas pessoas, estes sintomas são suaves, enquanto em outras podem ser debilitantes e interferir nas atividades diárias. Alguns amputados sentem que o membro fantasma é distorcido, ou mais curto que o original. Diante da remoção de uma parte do corpo deformada, a deformidade, curiosamente, é transferida ao membro fantasma.

O fenômeno do membro fantasma é mais frequente nos adultos que nas crianças, provavelmente porque o cérebro, no caso das crianças, ainda não tenha terminado de consolidar as imagens de órgãos externos no corpo. Apegado ao seu corpo, o ser humano transforma saudade em fantasma.
 


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