A doença da urina do rato

Doutor João Evangelista, médico e colunista de A Tribuna (Foto: Arquivo/AT)
Doutor João Evangelista, médico e colunista de A Tribuna (Foto: Arquivo/AT)
O mundo está lembrando o centenário do término da Primeira Guerra Mundial. Entre 1914 e 1918, soldados inimigos trocavam tiros, buscando proteção dentro das trincheiras.

Naquela época, ninguém desconfiava que um pequeno habitante daquele lamacento ambiente provocasse incontáveis baixas nos combatentes.

Correndo de um lado para outro, em busca de alimento, ratazanas despejavam leptospiras através da urina.

Em contato com a pele dos soldados, essa bactéria provoca leptospirose, doença grave, de evolução imprevisível.

O tempo passou, a vida mudou, mas os desatinos continuam em voga. Violando a natureza, o ser humano tornou a poluição um beligerante adversário. Períodos de chuvas provocam enchentes, aumentando o risco de doenças infectocontagiosas.

As enxurradas carregam os mais variados tipos de imundícies, temidas pelas pessoas, mas desejadas pelos roedores. Abrigo, alimento, água e acesso; os rios de lama oferecem tudo o que o rato quer.

O agente causador da leptospirose, também conhecida como Doença de Weil, é uma bactéria, em forma de saca-rolhas, do gênero leptospiras. Esse microrganismo habita nos rins de agentes transmissores, principalmente roedores, e, depois de excretado pela urina, sobrevive por seis meses no meio ambiente.

As leptospiras penetram no corpo através da pele, principalmente por arranhões ou ferimentos. O contato com esgotos, lagoas, rios e terrenos baldios, também podem propiciar a infecção.

Veterinários e tratadores de animais podem adquirir a doença pelo contato com a urina, sangue, tecidos e órgãos de animais infectados.

Os sintomas variam muito de pessoa para pessoa. Em geral, eles se caracterizam pelo surgimento repentino de febre alta, dores abdominais, musculares e de cabeça, aumento de volume do baço e erupções cutâneas.

Após alguns dias de evolução do quadro nosológico, surge a icterícia, coloração amarelada da pele e dos olhos, evidenciando que as bactérias já acometeram o fígado do paciente. Além disso, outros órgãos podem ser afetados e provocar sintomas, como tosse e sangramentos pelo nariz.

O diagnóstico da leptospirose é difícil, em função da multiplicidade de sintomas possíveis. O exame de sangue pode mostrar alguns sinais biológicos suspeitos, como aumento dos glóbulos brancos e diminuição do número de plaquetas. A investigação se baseia também na análise dos anticorpos específicos da doença.

O tratamento consiste, fundamentalmente, no uso de antibióticos. É necessário estar atento para tratar possíveis complicações secundárias em outros órgãos, objetivando reduzir a intensidade dos sintomas. Na maior parte dos casos, o paciente deve ser internado para ter melhor suporte médico.

Na maioria das vezes, a leptospirose evolui para a cura. O uso de medicamentos na dosagem e tempo hábil é capaz de eliminar a bactéria. A hidratação também auxilia na recuperação do paciente.

Para não contrair leptospirose, é importante evitar o contato com animais e, principalmente, sua urina.

Além disso, não se deve tomar banho em rios existentes nas regiões onde a patologia é endêmica. Doenças prezam a negligência e odeiam a prevenção.

Enchentes em grandes cidades também podem desencadear casos de leptospirose. Nesse sentido, convém não sair à rua durante alagamentos e nem ter contato com a água.

Indivíduos que trabalham na limpeza urbana e têm contato com lama, entulhos e esgotos, devem usar botas e luvas de borracha. É importante esclarecer que a água sanitária mata as leptospiras e deve ser utilizada para desinfetar reservatórios de água.

A história do ser humano torna-se cada vez mais uma corrida entre o progresso e a calamidade.

João Evangelista Teixeira Lima é clínico geral e gastroenterologista


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