A Copa de quem precisa ganhar a vida

O vendedor de mexerica Flávio Jesus é fã do Neymar e joga como volante nas peladas do bairro onde mora, na Serra. (Foto: Thaísa Côrtes)
O vendedor de mexerica Flávio Jesus é fã do Neymar e joga como volante nas peladas do bairro onde mora, na Serra. (Foto: Thaísa Côrtes)
Diante dos números de audiência, não se pode negar: a Copa do Mundo é o maior evento esportivo do planeta. Só em 2014, a final do Mundial realizado no Brasil, os números bateram o recorde de 1 bilhão de telespectadores, segundo dados da Fifa.

Muitos aficionados pelo futebol têm a oportunidade de acompanhar os melhores jogadores do mundo em um mesmo evento. Futebol de alto nível e recheado de ídolos.

E se você consegue, ao menos, acompanhar ao jogo da Seleção Brasileira, que sorte a sua. E aqueles que não têm essa oportunidade? Há trabalhadores que precisam ganhar a vida, vender suas mercadorias e vencer o jogo da sobrevivência, enquanto os jogadores da Seleção correm atrás da bola nas partidas na Rússia.

E quem são essas pessoas? Você conhece? Já parou para conversar com elas? São pessoas que muitas vezes nos são invisíveis. São pessoas que chegam cedo às ruas e que precisam voltar para casa com um bom dia de venda, mas nem sempre acontece.

Foi em uma das ruas transversais entre a Constante Sodré e a Avenida Rio Branco em Vitória que encontrei um desses exemplos, o Flávio Jesus. Vendedor de mexericas, ele é apaixonado por futebol e volante nas peladas do bairro onde mora. “Sou fã do Neymar, mas também gosto do Cristiano Ronaldo e do Messi”, revela.

Os horários dos jogos batem com aqueles em que está na rua, tentando vender suas mexericas, na Praia do Canto. “Estou aqui há 3 anos. É um ponto bom, principalmente no horário de saída das crianças da escola. Por isso não dá para acompanhar os jogos”, conta Flávio, que, algumas vezes, consegue dar uma olhadinha nas partidas: “Quando sobra um tempinho, ligo a televisão do meu celular e tento assistir. Mas não é sempre”.

Outro que também tenta se manter informado sobre os jogos, enquanto trabalha, é o jovem Felipe Silva, de 20 anos. Ele atua como lavador de carros e ajudante de pedreiro. “Os amigos ficam me atualizando e, às vezes, rola de ligar o rádio para acompanhar, mas não é sempre".

Fã do camisa 7 de Portugal, Cristiano Ronaldo, atual melhor do mundo, Felipe me contou que não vê tempo ruim quando o assunto é trabalho, mesmo se for no horário do jogo do Brasil.

“Trabalho é trabalho e, se tiver, a gente faz. Quando é jogo do Brasil, é uma euforia diferente. Só de ouvir, já é bom demais”, fala Felipe.

Há oito anos vendendo pão de queijo, Marlon sai de casa cedo e não consegue acompanhar aos jogos da Copa. (Foto: Thaísa Côrtes)
Há oito anos vendendo pão de queijo, Marlon sai de casa cedo e não consegue acompanhar aos jogos da Copa. (Foto: Thaísa Côrtes)
E quando a sua mercadoria te faz estar de pé antes das 6h e continuar até depois das 18h, para aproveitar o movimento dentro dos ônibus? Você literalmente não tem tempo algum para ver quaisquer jogos.

É o caso do vendedor de pão de queijo Marlon. Conheci dentro do ônibus, na quarta-feira (20), enquanto eu estava indo para casa, ouvindo rádio para tentar acompanhar o jogo da Espanha e Irã que acontecia naquela tarde, pelo Grupo B.

O motorista e o trocador conversavam sobre o jogo, que eles também não podiam ver, mas souberam por conta de outras pessoas que não estava tão fácil para a Espanha. Percebi a curiosidade do Marlon ao vê-lo perguntar para o trocador sobre o placar. Esperei chegar perto de mim para perguntar: você gosta de futebol?

E a conversa fluiu. Quem gosta de futebol quando encontra outra pessoa com a mesma paixão, uma coisa é certa: vocês podem conversar por horas, já são amigos.

Dessa conversa o Marlon me contou que trabalha vendendo pão de queijo há 8 anos e, por conta do horário e da rotina, não estava conseguindo ver os jogos.

“Não consigo acompanhar, mas as pessoas nas ruas me atualizam sempre sobre o que está acontecendo. Ficam comentando sobre os jogos comigo e, assim, fico sabendo", conta Marlon.

Nesta quarta-feira (27) às 15 horas, quando a bola rolar para o jogo da Seleção contra a Sérvia, Neymar, Coutinho, Jesus e cia estarão em campo lutando pela sobrevivência na Copa. Já Flávio, Felipe, Marlon e tantos outros continuarão em busca de outra sobrevivência: aquela que garante o pão de cada dia. A torcida é para que todos sejam vitoriosos, na bola e na vida.

Por Thaísa Côrtes