A bossa eternizada

 (Foto: Divulgação)
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Ela desce de um carro e avança pelo pátio da antiga igreja matriz de Cachoeiro, ali perto do Liceu Muniz Freire, vai cumprimentando as pessoas meneando a cabeça. A certa altura, fixa o olhar na minha direção. Eu tinha entre os dedos o objeto do seu desejo. Avança em minha direção e vem com o dedo indicador e médio fechando em V, sinalizando se eu posso ceder um cigarro. Ofereço um, que acendo fazendo concha.

Ela traga e depois emenda soprando: “Vim de Nova Iorque, viajei a noite toda, e quando cheguei em casa, papai me pediu para vir aqui, no lugar dele”.

Acabara ali minha esperança de gravar um depoimento com João Gilberto, em Cachoeiro. A ocasião era apropriada, o casamento de um sobrinho próximo em que o papa da bossa nova fora convidado para ser padrinho. Apareceu sua representante, Bebel Gilberto, que alguns anos mais tarde seria cantora de sucesso, mais internacional do que nacional, e que também se tornou conhecida por um apelido irreverente da turma do Baixo Leblon: “Bebeu Gilberto”, por obra de suas
extravagâncias etílicas fora dos palcos.

Mas se eu soubesse naquele dia perdido no calendário de 1994, o que sei agora –parece letra de samba-canção – teria valorizado aquele contato e gravado alguma coisa com Bebel, para encaixar no documentário em produção, “Cachoeiro em Três Tons”. Como Bebel tinha que seguir para a cerimônia do casamento, ofereci meu maço de cigarros de presente, não sem antes brincar de advertir: “Cantoras não devem fumar muito, hein”.

Já o hábito do seu pai fumar outro tipo de cigarro, digamos orgânico, deu muito que falar. Reza a lenda que ele brigou com o escritor Ruy Castro por ter citado isso no livro “Chega de Saudade”, uma notável apologia ao movimento bossa-nova que ele, João Gilberto, alicerçou há exatos 60 anos ao gravar, com a batida inovadora do seu violão duas canções inesquecíveis. De um lado, “Chega de Saudade” (Tom-Vinícius de Moraes), no outro “Bim Bom”, do próprio João Gilberto um compositor meio bissexto.

A primeira virou ícone, gerou até enquete famosa que volta e meia é reprisada: “Onde você estava e o que sentiu quando ouviu pela primeira vez “Chega de Saudade”?

Agora a mídia celebra o surgimento daquele inusitado samba-choro. Iniciado em tons menores (“Vai minha tristeza e diz a ela...”), evolui em tom maior (... Mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda, que coisa louca pois há menos peixinhos a nadar no mar, do que os beijinhos que eu darei na sua boca...”). Gravado em 78 rotações, no mês de julho, seria lançado em 21 de agosto de 1958 ainda em meio à euforia da conquista brasileira da primeira Copa do Mundo de futebol na Suécia. De certa forma, aquela canção modernizadora também ajudou a chutar para linha de fundo o “complexo de vira-lata que perseguia o brasileiro”, segundo Nelson Rodrigues.

E hoje, por onde anda João Gilberto, notório recluso e único sobrevivente do trio seminal da bossa nova (Tom, Vinícius e ele)? Isso dá tema para livro, documentário, filme, e muito mais. A propósito, está entrando no circuito de cinema o documentário “Onde está você, João Gilberto?”, feito por um francês e com base no livro de um jornalista alemão Marc Fisher, lançado em 2011. Por aí já se vê que atualmente a bossa nova desperta mais interesse no exterior do que em seu próprio berço.

Num dia de sol, se você circular por Ipanema ou Bacutia, irá ouvir todo tipo de som – do sertanejo ao funk, pop, rap, pagode etc. – menos a música que encantou Frank Sinatra, Beatles e meio mundo, e que aqui costuma ser rotulada de “música de velho”.

Voltando ao paradeiro do misterioso João Gilberto, pesco aqui e ali uma série de contratempos, que vão da penúria financeira, ameaça de despejo, saúde abalada, direitos autorais reclamados, os filhos (Bebel e João Marcelo) não se entendendo. E bem no meio do turbilhão uma ex-mulher com fama de madrasta ao pé da letra. O publicitário Nizan Guanaes chegou a propor que por ser ele um patrimônio imaterial do País, poder público e iniciativa privada encontrem um meio de quitar suas dividas.

Por meio de um sobrinho dele que mora em Manguinhos, na Serra, fico sabendo que após deixar o antigo apartamento em que residia, no Rio de Janeiro, o tio João Gilberto foi alojado num dos apartamentos da mulher de Caetano Veloso, a empresária Paula Lavigne. Seja como for, a esta altura o que parece fundamental é que ele tenha ao menos um cantinho e um violão para chamar de seu. É o mínimo, pelo muito que fez: inventou a batida perfeita, revolucionou o modo de cantar e nos ensinou que no peito dos desafinados também bate um coração.