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Presidente Kennedy a ver navios
Luiz Trevisan

Presidente Kennedy a ver navios

Vista aérea da cidade de Presidente Kennedy (Foto: )
Vista aérea da cidade de Presidente Kennedy (Foto: )

“Com raras exceções, lideranças e autoridades locais mais atrapalham do que ajudam – vários deles encalacrados na Justiça –, enquanto analistas apontam que o problema econômico de Presidente Kennedy é não ter renda própria, fica extremamente dependente do dinheiro do petróleo”

Durante muitos anos, chamava-se Batalha, lugar de grandes pastagens e bois a perder de vista. Depois, ganhou o nome de presidente norte-americano e até hoje muita gente não entende bem isso, já houve até campanha para trocar o nome do município para algo ou alguém relacionado à nossa história. O que dá para entender é que foi uma homenagem dos militares brasileiros ao presidente norte-americano, que certamente teria apoiado o golpe de 1964 caso não tivesse sido assassinado nas ruas do Texas, naquela cena inesquecível em época de guerra fria: Kennedy, em carro aberto, alvejado por tiros ao lado de Jacqueline, pânico total. Depois o funeral, a viúva, triste e linda, ao lado dos filhos ali vendidos.

Presidente Kennedy batizado, o município seguiu por muito tempo com a sina de lugar de grandes pastagens, locais ermos, praias desertas e uma população rural em atividades de subsistência. O lugar aparecia remotamente no noticiário por causa das cigarrinhas a infestar as pastagens prejudicando a produção agropecuária, ou de algum loteamento imobiliário lançado na Praia das Neves prometendo verões tranquilos diante de águas calmas e piscosas, banho de mar e peixe frito. O tempo passa, descobrem petróleo na bacia marítima da região, surgem os royalties, dinheiro, carros, poder e um mundo de contradição. Entre eles, o persistente baixo IDH- Índice de Desenvolvimento Humano.

Com raras exceções, lideranças e autoridades locais mais atrapalham do que ajudam – vários deles encalacrados na Justiça –, enquanto analistas apontam que o problema econômico de Presidente Kennedy é não ter renda própria, fica extremamente dependente do dinheiro do petróleo, que por sua vez não pode ser aplicado em custeio da máquina pública. Então, ao mesmo tempo em que tem R$ 1 bi em caixa aplicado, encontra dificuldade para pagar a folha de pessoal e contratar determinados serviços básicos. A solução vislumbrada: atrair empresas. Quando anunciaram o sinal verde ambiental para o Porto Central, seria o início da redenção? Há controvérsias.

Tempos atrás, um desembargador divulgou relatório apontando evidências, e pedia apurações, referente às negociações suspeitas da compra e venda de terras que seriam valorizadas com a chegada do Porto Central e o previsto complexo mineralógico. Apontou nomes conhecidos e outros escondidos entre laranjas. Agora, são os pescadores temerosos: acham que vão ficar a ver navios, quando as embarcações começarem a circular por lá. Falam em grandes braços de atracação, muitos píeres e navios gigantes, negócio de bilhões. Coisa assim de peixe grande, as sardinhas que se cuidem.

Há muito impacto a considerar com este empreendimento, principalmente social e ambiental. Há que considerar ainda a nebulosidade de interesses referentes a licenças ambientais, associado à pressão e o lobby das empresas que sinalizam geração de emprego e renda, meio assim como quem põe cenoura na frente de coelhos, mas que de sustentabilidade só têm a propaganda. A tragédia de Mariana, como exemplo próximo, não pode ser esquecida. Principalmente o descaso com que tratam as vítimas e os impactos. E ainda falam em premiar a Samarco com a volta das atividades.

E nesse andar da carruagem do futuro, um dia – quem sabe? – ainda há de existir algum maratimba com olhar marejado de saudade ao manusear um antigo prospecto imobiliário anunciando verões azuis, águas calmas e piscosas na Praia das Neves.


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