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Ator Fabrício Boliveira viverá nova cinebiografia de Wilson Simonal

Música

Ator Fabrício Boliveira viverá nova cinebiografia de Wilson Simonal


 (Foto: )
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Em entrevista, Fabrício Boliveira analisa o personagem Simonal, que vive no cinema, e questões contemporâneas como racismo e cultura.

“Eu acho que ninguém é passível de julgamento”, sintetiza o ator Fabrício Boliveira, ao defender o benefício da dúvida, no caso que arruinou o cantor Wilson Simonal, personagem da história da música brasileira personificado por ele em Simonal, filme de Leonardo Domingues. Atuando ou não ao lado de agentes da ditadura, num caso de sequestro e tentativa de extorsão, Simonal foi penalizado pela elite cultural e viu o povo afastado de seus shows, cancelados em cascata. Fabrício Boliveira, aos 37 anos, fala sobre o novo filme, em meio às gravações da futura novela das 21h, com estreia em novembro, chamada Amor de mãe, que terá nomes como Taís Araújo, Adriana Esteves e Isis Valverde. Com as duas últimas atrizes virá o repeteco de sucessos: Isis esteve com ele em Simonal e ainda em Faroeste caboclo, no cinema; enquanto, na tevê, na pele de Laureta, Adriana Esteves dividiu as glórias com Boliveira, em Segundo Sol.

Repassar, brevemente, parte da carreira de Fabrício, no cinema, dá entendimento de um eterno desafio “em relação à condição do outro”, que ele tanto defende. Do folclórico Saci, vivido na telinha, em Sítio do Picapau Amarelo algo foi herdado na elaboração de Tião, o esquivo, preguiçoso e malemolente motorista retratado no longa Além do homem.

Empenhado em “propor reflexão e fazer denúncias”, entre tantas funções da arte, Fabrício ainda abriu o leque de interferências sociais, em obras como Tungstênio (do pernambucano Heitor Dhalia), no qual abraçou o papel do policial que vive relação violenta com a esposa, com abuso de gênero; e Nise: O coração da loucura, no qual, ao lado de Glória Pires, viveu Fernando Diniz, artista descoberto em meio ao processo afetivo junto a pacientes de casos psiquiátricos tratados pele revolucionária Nise da Silveira.

Confira a entrevista:

Manter-se como artista é coisa desafiadora hoje em dia, em termos ideológicos e financeiros?
Eu tenho uma sensação, vendo a história do Simonal, que é perigoso, hoje também, para o artista negro no Brasil, porque ele sempre será questionado no lugar que estiver ocupando. Acho que posso até devolver essa pergunta, questionando quantos artistas negros de sucesso você conhece e comparar com a quantidade de artistas brancos, numa realidade de mais de 50% de uma população formada por negros no Brasil. Acho também que, hoje, ser artista virou um certo desafio. Existe um pensamento de ignorância, de descrédito sobre o nosso trabalho, não entendendo a real função que é propor reflexão, pensamento, apontar possibilidades, contar histórias passadas, fazer denúncias. Isso realmente é importante para qualquer sociedade, para além de entreter. Tem alguma coisa acontecendo no Brasil, onde o nosso trabalho continua sendo visto e consumido. Mas, de algum jeito, tem uma nuvem de desrespeito e descrédito sem respaldo, pelo puro prazer de chocar e defender interesses vis.

Como espectador, que momento do filme Simonal é capaz de te emocionar?
Fico muito emocionado pensando no artista, num profissional impedido de exercer a sua função, o que mais ama fazer, o que na verdade o motiva, por conta de uma fake news. Tem uma cena que, para mim, é muito contundente nesse sentido. O momento em que ele vai conversar com o jornalista, que foi um dos possíveis acusadores dele, e ele chega bêbado e grita para o cara, falando que ele tá sendo impedido de cantar. Eu acho isso muito emocionante, e triste.

Quais são seus ídolos musicais?
Tem muita gente que escuto e que escutei. Emílio Santiago, Elza Soares, Gal Costa, Gilberto Gil, Caetano Veloso, por ser baiano, ouvi bastante em casa. Mas estou muito conectado com a tal renovação da música brasileira! A tal música nova, que talvez não aparecesse, mas ela apareceu com muita força. Baco Exu do Blues, Luedji Luna, Xenia, Tassia Reis, Linn da Quebrada, Anelis Assumpção, Negro Leo, Afrocidade, Mc Tha, Jaloo, Curumim. Tem muita gente fazendo um som superimportante, com conteúdo e conectado com o nosso presente.

Você acredita que Teresa (mulher de Simonal, vivida na tela por Isis Valverde) tivesse dimensão do empoderamento feminino? Como foi estar novamente com a Isis no set?
Difícil determinar isso sobre alguém, ainda mais num contexto feminino, né? Eu sou homem, então é muito difícil entender ou opinar sobre a consciência de uma mulher em relação à condição dela. Acho que não sou a pessoa certa para falar. Mas, trabalhando com a Isis, entendi como foi difícil para ela fazer esse filme, ficar aprisionada no lugar da mulher na década de 1960 e 1970, subjugada fortemente pelo machismo. Uma mulher como a Ísis, livre e tão independente.

Como vê o preconceito contra Seu Jorge, num filme como Marighella? O Brasil recentemente perdeu Ruth de Souza... Simonal está em pauta. Como percebe a condição de ser artista negro no Brasil?
Este novo filme tem me deixado uma coisa muito bonita. O que aconteceu com Simonal, o tapete puxado que ele sofreu, eu acho que tinha muito a ver com ele estar “sozinho” naquele momento. Talvez com um ou outro artista, ele conseguia se fortalecer. Eram outros tempos, onde a história do racismo, por exemplo, não estava difundida, o papo sobre racismo não estava tão popular para grupos sociais de não negros. Acho que a grande diferença é que, hoje, em qualquer mesa de bar, o papo de racismo chega, as pessoas conseguem entender o que é lugar de fala, o que é respeito pela condição do outro e consciência da história do Brasil escravocrata. Hoje estamos mais juntos, estamos nos cuidando, nos observando. Talvez seja uma utopia, mas eu acho que é a segurança que nos mantém hoje.

Brasília é o terreno da política... O que o cara que encenou Faroeste caboclo, João de Santo Cristo, queria “era falar pro presidente?” Que recado você daria?
Eu diria hoje para o povo brasileiro, que é realmente quem me interessa, que aproveitem a oportunidade no cinema, nas artes em geral, para rever a sua própria história, rever a sua individualidade, sua construção como ser humano. Refletir a respeito para poder caminhar por novos lugares mais sadios, lugares onde não esteja só o ego como foco. Olhar para o lado. Empatia em relação à condição do outro.


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